



















 Vida de princesa
  The Scorsolini marriage Bargain
  Lucy Monroe
  Noivas Reais 3


   - O que est dizendo?
   - O mdico me contou que praticamente no h chances de eu engravidar sem uma fertilizao in vitro, e mesmo assim no h garantias.
   - Mas voc fez exames de fertilidade antes do casamento. Seu mdico est certo disso?
   - Sim.
   Ele ficou em um silncio que ela no podia suportar.
   
    
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   CAPTULO UM
   
   - Alguns dias, ser princesa equivale a ser uma presidiria. - Theresa murmurou enquanto fechava o zper de seu vestido verde favorito para outro jantar formal 
no palcio Scorsolini.
   Entretanto, no era a expectativa de jantar mais uma vez com o rei Vicente e seus dignitrios que a inomodava. Era a frustrao de ter passado mais um dia no 
prprio purgatrio. Ela adorava o rei de Isole dei Re e era mais prxima a ele do que ao prprio pai.
   Mas, ainda assim, algumas vezes desejava que ela e Cludio tivessem o prprio lar, e no apenas um conjunto de apartamentos no palcio real. Especialmente naquela 
noite, por estar irrequieta diante da necessidade de compartilhar as notcias que recebera do seu mdico de Miami. Ela fora aos Estados Unidos para fazer esse exame, 
a fim de garantir discrio.
   Agora, quase no desejava ter ido. Porque, se a imprensa ficasse sabendo da histria, pelo menos seria poupada de ter que comunicar as notcias a Cludio.
   Era um pensamento covarde, e ela no era covarde.
   Mas at mesmo ela, com anos de treinamento como filha de diplomata, no podia olhar para o fim do seu casamento com serenidade. Diferente dos seus pais, ela no 
via a vida como uma srie de movimentos e contra-movimentos polticos. Para ela... a vida real doa.
   Cludio terminou de abotoar o segundo punho e colocou as luvas com movimentos precisos e familiares que causaram dor no corao dela, diante da possibilidade 
de perder isso tudo. Ele torceu os lbios, o que dava ao seu rosto um ar cnico.
   - Terei certeza e direi  sua me que voc pensa assim.
   - No ouse.
   Cludio considerava a tendncia a alpinismo social da me dela uma fonte de diverso, mas Theresa, no. Afinal de contas, era  custa dela que a me pretendia 
subir.
   - No tenho o menor desejo de ouvir a Lio 101 de mame sobre o quanto tenho sorte por ser uma princesa ou o quanto minha vida  privilegiada. - Isso sem falar 
no quanto era surpreendente o fato de Cludio ter escolhido Theresa, entre tantas mulheres no mundo. No queria ouvir isso. Agora, no.
   - Talvez ela seja capaz de compreender melhor que eu o seu aparente desencanto com a vida. - A voz de Cludio indicava que ele estava parcialmente brincando, 
mas seu olhar sombrio afirmava que ele falava srio.
   - No estou desencantada com a minha vida. - Ela estava to-somente arrasada pela vida, mas agora no era momento para falar disso.
   E no podia deixar de pensar que sua charmosa vida havia chegado ao fim... provavelmente desde o comeo, mas estava cega demais para notar isso. Ela comprara 
a idia do conto de fadas s para descobrir que o amor unilateral trazia apenas dor, e no prazer. O "felizes para sempre" era apenas para as princesas dos livros... 
ou para as que eram amadas pelo que eram, como as duas mulheres casadas com os outros prncipes Scorsolini.
   - Ento, por que comparou a vida como minha esposa  de uma presidiria? - perguntou Cludio do alto de seu metro e oitenta e com um perfume que a cercava s 
para lembr-la do quanto sentiria falta de sua presena fsica quando tudo acabasse.
   Ele era o sonho de toda mulher, o tipo de prncipe que enfeitava os contos de fada. Ela havia criado muitas fantasias com ele para saber. Ele tinha cabelos pretos, 
olhos castanhos e o tom de pele morena de seus ancestrais sicilianos, mas a altura de um atleta profissional. Seu corpo era musculoso, sem qualquer resqucio de 
gordura, e seu rosto poderia ser o de um ator americano... talvez de uma poca diferente, porm. No a beleza bvia dos rapazes, mas outra, com ngulos vigorosos 
e uma fenda no queixo que demonstrava uma fora de carter na qual ela havia aprendido a confiar inteiramente.
   Ela teve de engolir duas vezes antes de responder.
   - Eu no disse que ser sua esposa era como ser presidiria.
   - Voc disse a vida de uma princesa, o que voc no seria se no fosse casada comigo.
   - Verdade. - Ela suspirou. - Mas no quis ofend-lo.
   Ele apalpou a face dela em um movimento que certamente enviaria ondas de prazer s suas terminaes nervosas. Ele a tocava to raramente quando no estavam na 
cama que, quando o fazia, ela no sabia como reagir.
   - No estou ofendido, apenas preocupado. - Ela podia perceber a preocupao no tom de voz dele e sentiu-se culpada.
   Ele no fizera nada de errado... exceto ter escolhido a mulher errada para ser sua princesa.
   - Eu tive um dia difcil, s isso.
   A outra mo dele uniu-se  primeira e ele inclinou a cabea dela para cima, para que ela no desviasse os olhos.
   - Por qu?
   Ela lambeu os lbios, desejando novamente que no descessem para jantar com o pai dele. Ela tambm desejava muito que a forte dor que sentia na barriga fosse 
apenas uma clica menstrual, desde que havia parado de tomar plula para que pudessem ter um filho.
   - Passei a manh toda com representantes das principais organizaes femininas de Isole dei Re para discutir a necessidade de creches e escolas em toda a ilha.
   - Pensei que a mulher de Tomasso estivesse cuidando disso.
   - O vo de helicptero entre as ilhas aumentou o enjo de Maggie, mas ela no quis cancelar a reunio. Eu a convenci a deixar-me assumir seu lugar. Agora, acho 
que devia ter mandado as representantes se encontrarem com ela em Diamante.
   - Por qu? Voc e Maggie tm a mesma viso sobre esse assunto.
   - No de acordo com as representantes. - Ela sorriu. - Elas acham que uma mulher que no tem filhos e que, sobretudo, nunca precisou trabalhar para viver, no 
compreenderia os desafios da mulher que trabalha fora. Acreditam que Maggie seja ideal para essa misso e que devo me manter fora disso.
   - Elas disseram isso a voc? - Ele no parecia ofendido por ela, apenas curioso. No tinha idia do quanto a desaprovao daquelas mulheres a magoara.
   - Sim.
   - Ento, o fato de ter crescido aprendendo a diplomacia foi bom.
   - Quer dizer que teria se chateado se eu tivesse dito a elas para pegarem um vo e encontrarem Maggie?
   Cludio soltou uma gargalhada masculina, como se no pudesse imaginar a cena.
   - Como se voc fosse fazer isso.
   - Talvez tenha feito.
   Mas ele apenas sacudiu a cabea.
   - Conheo voc. Sem chances.
   - Talvez no me conhea tanto quanto pensa. - Na realidade, ela sabia que no. Afinal de contas, ele nunca se ativera ao fato de ela ter se casado com ele por 
amor. O casamento por convenincia fora um plano arquitetado pela mente dele e da me dela.
   - Fez isso? - ele perguntou, com uma sobrancelha irnica levantada.
   Ela queria dizer que sim s para provar que ele estava errado, mas falou a verdade. 
   - No, mas quis fazer.
   - Em geral, o que queremos e o que nos permitimos fazer no so a mesma coisa. E isso faz parte de se adequar  posio que voc ocupa.
   - E voc ainda pergunta por que comparei ser princesa a ser uma presidiria?
   - Est infeliz, Theresa?
   - No mais que a maioria das pessoas - ela admitiu. Desde pequena, aprendera a esconder as verdadeiras emoes, mas estava cansada de fingir.
   - Voc est infeliz? - Cludio perguntou com um tom de voz que trazia uma inegvel perplexidade.
   Aquele homem, to conhecido nos crculos diplomticos por sua perspiccia, sentia-se ameaado quando se tratava de Theresa.
   - Duas das representantes no foram nada sutis em expressar sua opinio de que j passou da hora de eu lhe dar um herdeiro - ela falou, em vez de responder.
   - E isso a chateia? - Novamente ele parecia surpreso.
   - Um pouco.
   - Mas no deveria. Logo voc poder compartilhar boas notcias nessa rea.
   Ela estremeceu, como se as palavras dele tivessem cado como sal em uma ferida que fora deixada aberta e sangrando com a ligao do mdico.
   - E se eu no puder? - ela perguntou, testando um caminho que no estava pronta para enfrentar.
   Ele colocou as mos grandes e calorosas sobre seus ombros e virou-lhe o rosto com movimentos firmes.
   - Est chateada por ainda no ter engravidado? No deveria. Estamos tentando h apenas alguns meses. O mdico falou que mulheres que tomam plula por muito tempo 
podem levar mais tempo para engravidar, mas logo vai acontecer. Afinal de contas, sabemos que est tudo em ordem.
   Pior que sal na ferida, essas palavras foram como duras chicotadas. Antes de se casarem, trs anos antes, ele havia exigido que os dois fizessem vrios exames, 
inclusive alguns relativos a tipo sangneo e compatibilidade do esperma dele com o muco do tero de Theresa. Ele tambm havia pedido que ela fizesse um teste sobre 
os seus ciclos de fertilidade, somente como garantia adicional.
   Sabendo que grande parte do casamento com ela envolvia fornecer um herdeiro para o trono da famlia Scorsolini, ela havia concordado seu pestanejar. Tudo estava 
normal. Eles tinham compatibilidade para gravidez e ela era frtil como todas as mulheres de sua idade.
   A surpresa maior para ela fora o desejo dele de esperar um pouco para ter um beb. Ela no entendia nem sabia por que ele queria esperar, mas agora sabia que 
a chance que teriam de ter um filho juntos fora por gua abaixo.
   Incapaz de suportar qualquer nvel de intimidade diante do que ela sabia que estava por vir, at mesmo de um toque mais simples, ela se afastou dele.
   
   Cludio sentiu muita raiva diante desse comportamento de Theresa, com suas curvas femininas provocando uma libido que ansiava por ela dia e noite. Ele queria 
agarr-la e perguntar por que, depois de trs anos, seu toque no era mais aceitvel, mas essa seria uma atitude de um homem primitivo, e a coroa de prncipe de 
Isole dei Re no era primitiva.
   Alm disso, a rejeio fsica dela no era novidade. Isso vinha acontecendo h meses, mas, sempre que ela se esquivava de um contato fsico, ele ficava surpreso. 
Depois de dois anos recebendo uma incrvel paixo como resposta sempre que a tocava, ele podia ser perdoado por achar quase impossvel resignar-se diante da repentina 
mudana de atitude dela.
   Antes dos ltimos meses ele juraria que Theresa o amava. Ela nunca falou isso, mas durante os dois primeiros anos do casamento, ela havia demonstrado de vrias 
formas sutis e nem to sutis assim que sentia mais que uma satisfao mercenria de uma mulher por um casamento bem contratado. O amor dela no fora uma das condies 
de Cludio, portanto ele no se prolongara no assunto... at que ele terminasse.
   No que precisasse que ela sentisse isso, mas no conseguia parar de pensar no momento em que tudo tinha acabado e por que ela parecia no desej-lo mais com 
a mesma paixo que o atraa.
   A rejeio fsica comeou um ou dois meses depois de ela ter parado de tomar plula. Inicialmente, ele pensou que talvez tivessem sido os hormnios. Ele leu em 
algum lugar que esse tipo de coisa pode acontecer, mas, com o passar dos meses, tudo piorou.
   Ento, s vezes, ela fazia amor com ele como antes e todas as preocupaes dele desapareciam. S para reaparecerem quando ela se esquivava mais uma vez. Ele no 
estava acostumado a ser rejeitado na vida, especialmente por uma mulher que desejasse fisicamente. Isso vindo de sua prpria mulher era algo inaceitvel.
   E estava acontecendo mais e mais nos ltimos tempos.
   Ele comeou a imaginar se, l no fundo, ela no gostaria de engravidar.
   - Voc quer ter um beb meu? Est com medo do que possa acontecer?
   Ela se encolheu, como se ele tivesse batido nela, e seu rosto empalideceu.
   - Sim, quero ter um filho seu. Mais que tudo. No sei como pode imaginar outra coisa.
   Ela fora to firme em suas palavras que ele no tinha como duvidar.
   - Ento, nada nessa situao deve chate-la.
   O olhar que ela lanou com seus olhos verdes no era encorajador, mas ele continuou, certo de sua concluso.
   - Logo voc poder calar essas pessoas com a realidade da gravidez. Por enquanto, voc simplesmente lidar com a situao de forma diferente, mandando as representantes 
se encontrarem com Maggie.
   Ela virou o rosto para o espelho e prendeu os longos cabelos castanhos num coque.
   - E isso resolve tudo, no ?
   - Deveria - ele falou com certa exasperao. - No entendo por que est reagindo to intensamente a isso. Voc j lidou com pessoas bem mais irritantes que essas 
mulheres.
   Theresa deu de ombros e caminhou na direo da porta. Era muito linda, quase etrea em sua aparncia, apesar das curvas que proclamavam seu corpo. E, em situaes 
como essa, ela sentia-se intocvel como um esprito. Mas era mulher dele, era direito dele toc-la.
   Ele o fez, pegando seu brao quando ela passou.
   Ela parou e olhou para ele, seus lindos olhos verdes estavam tomados de uma vulnerabilidade que ele no compreendia, nem gostava. Aquilo implicava uma infelicidade 
que ele no queria que ela sentisse.
   - O que foi? - ela perguntou.
   - No gosto de v-la assim.
   - Eu sei. Voc espera que tudo na sua vida ande sem tropeos, que todas as pessoas cumpram seu papel sem questionamentos. Sua programao  analisada detalhadamente 
e as surpresas no so bem-vindas.
   - Esforo-me para isso.
   - A ponto de se casar com uma mulher com as qualificaes adequadas. Voc me investigou, e me testou para saber se eu me adequaria a ser sua principessa e futura 
rainha. Certamente no esperava que eu fosse uma fonte de frustrao para voc.
   Ela estava certa, mas ele no entendia o som fraco de sua voz. Ela no pareceu chateada em cumprir todo esse protocolo na poca.
   - Voc  tudo o que eu sempre quis como esposa. Naturalmente, na minha posio, faria qualquer esforo para ter certeza de que nosso futuro estivesse seguro, 
mas voc era e  perfeita para mim, cara.
   Ela se encolheu diante desse elogio, mais do que freqentemente se esquivava do toque dele. Como se qualquer aluso  intimidade entre ambos doesse. Mas eram 
ntimos. Eram marido e mulher. No havia relao mais ntima que essa.
   Ento, por que ele havia sentido como se ambos vivessem em hemisfrios totalmente diferentes no momento?
   Ele a puxou para perto, ignorando o sutil recolhimento de seu corpo.
   - No precisamos descer para jantar, voc sabe. Ela arregalou os olhos, surpresa.
   - Seu pai est recebendo dignitrios da Venezuela.
   - So seus parceiros de pescaria.
   - So diplomatas oficiais.
   - Ele no vai se incomodar se eu mandar avisar que no vamos. E h formas bem mais interessantes de passarmos a noite. 
   - Conversando?
   - No  o que tenho em mente.
   Ela fechou a cara e se afastou, em uma bvia rejeio.
   - Isso seria rude.
   Ser que Theresa havia encontrado outra pessoa para dividir sua natureza passional? Talvez tivesse at um amante. Ele sentiu uma grande fria diante dessa idia, 
mas, em sua arrogncia, no podia pensar em nada mais que fizesse com que ela o rejeitasse fisicamente. Alm disso, algumas vezes, ela agia como se no estivesse 
presente, e ele tinha um argumento convincente para achar que ela havia conhecido outra pessoa.
   To convincente que ele no tinha certeza se conseguiria controlar a fria que sentia. Detestava sentir-se assim. Casara-se com ela para evitar esse tipo de convulso 
emocional em sua vida.
   E essa era a principal razo para nunca ter expressado sua suspeita. Ele conhecia Theresa melhor que muitos homens conheciam suas mulheres. Ele se assegurou disso, 
e tudo que conhecia de seu carter dizia que ela nunca, sob circunstncia alguma, agiria to desonestamente a ponto de ter um caso. Essa fora uma das razes de ter 
se casado com ela. Era uma mulher muito ntegra, mas tambm era uma mulher acostumada a ter fortes paixes.
   Se algum pudesse mudar isso... ser que o outro podia? Ser que algum homem desconhecido estava se aproveitando da sensualidade secreta dela, algo que costumava 
satisfazer tanto a Cludio? Ele no podia acreditar nisso, mas, ao contrrio do que podia parecer, ele tinha de saber a verdade.
   Ligaria para uma agncia de detetives e solicitaria uma investigao sobre as atividades atuais de Theresa e seus movimentos no ltimo ano. Hawke, o dono da agncia 
de detetives internacional, era totalmente discreto e o melhor nesse ramo.
   De uma forma ou de outra, Cludio descobriria a origem do comportamento misterioso de sua mulher. Se outro homem estivesse envolvido, ele descobriria e lidaria 
com a situao adequadamente.
   Esse pensamento provocou uma raiva primitiva  qual ele no tinha inteno de se entregar.
   
   Theresa se arrependeu de ter rejeitado o convite de Cludio. Afinal, tudo que ele queria era apenas sexo? Ela podia contar a ele. O problema era que ela no queria. 
Enquanto mantivesse as notcias para si, parte dela podia continuar achando que seu casamento tinha alguma chance. Mas se tivessem conversado... se tivessem feito 
amor e tivesse dodo um pouco, ela teria mais uma lembrana para guardar em um futuro sem ele. Em vez disso, estava sentada com um sorriso colado no rosto enquanto 
ouvia uma conversa na qual no tinha interesse algum.
   Cludio recebera uma ligao na metade do jantar e desaparecera para atender, deixando-a totalmente sozinha.
   Ela sabia que ele no voltaria depois da ligao. Ele sempre preferia trabalhar a ficar com ela. Naquele dia  noite, certamente no seria diferente. Portanto, 
quando serviram o caf na sala ao lado, ela se retirou.
   Ela havia sentido dores na regio plvica durante todo o dia, mesmo sem estar menstruada. Agora, a dor se agravava e no se limitava mais ao perodo menstrual. 
De acordo com o mdico, as dores eram tpicas de sua condio, mas certamente no eram agradveis.
   Estava ficando cada vez mais difcil esconder a verdade de Cludio tambm, mas logo... no precisaria mais. Ela revelaria os resultados da laparoscopia feita 
secretamente em Miami. Ento, diria o que o mdico havia falado sobre o futuro nas condies dela, e Cludio diria que o casamento havia chegado ao fim.
   O pensamento era ainda pior que a dor no abdome e ela forou sua mente a lidar com o presente, e no com o provvel futuro.
   Talvez um longo banho de banheira e os remdios para dor pudessem ajudar e ela no teria de tomar uma das bombas de medicamento prescritas pelo mdico.
   Elas sempre a deixavam tonta, e ela detestava isso. Havia dias em que sequer lembrava do que tinha feito. A surpresa foi Cludio nunca ter reparado. Se ela precisasse 
de provas de que no passava de uma convenincia para ele, a estava uma.
   Como um homem, mesmo to distrado quanto Cludio, podia deixar de notar o comportamento da esposa como uma viciada em drogas? Mas ele nunca falava nada quando 
ela estava sob efeito dos medicamentos para dor. Para dar crdito a ele, ela fazia o melhor para esconder sua condio... de todas as formas. Mas havia uma grande 
parte dela que se ressentia pelo fato de isso ser to fcil.
   Se ele se importasse, no seria. Tinha certeza disso.
   Com o corao pesado, ela comeou a encher a banheira. Nenhuma mulher devia ter de conviver com o sentimento constante de que amava sem ser correspondida. Doa 
muito.
   Quando a banheira encheu, ela tomou os remdios para dor e entrou nela.
   Haviam passado trinta minutos quando ela ouviu rudos no quarto. Deixou a mente flutuar de forma que apenas a periferia de sua conscincia registrasse o que aqueles 
rudos significavam.
   - Se voc tiver dormido a, ento vou ficar mais que um pouco chateado com voc.
   Ela abriu ligeiramente os olhos e o impacto de sua presena a atingiu como sempre. Nenhum homem era lindo assim.
   - No estou dormindo. No tem que se irritar.
   - Certamente parece sonolenta - ele falou em tom de acusao, mas seus olhos escuros a devoravam de uma forma que dizia que um seguro banho de banheira no era 
a nica coisa na mente dele.
   O interesse bvio dele encontrou uma resposta vida no corpo dela. A eficcia do banho de banheira para amenizar a dor significava que ela podia investir nisso, 
se quisesse. E ela queria. Quando contasse a ele a verdade e ele aceitasse que haveria apenas uma soluo prtica para o futuro, ela passaria o resto da vida sem 
sentir as conseqncias do toque dele.
   - Que tal voc se juntar a mim? - ela sugeriu, olhando para o magnfico corpo dele. - Somente para fins de segurana, entende? Ele apertou os olhos.
   - Isso  um convite?
   - O que acha? Ele fez um som que era estranho, como um gemido de frustrao, embora seu corpo reagisse de uma forma bvia e bsica diante da sugesto.
   Ela ocultou o sorriso de satisfao diante da evidncia de que o homem a desejava. Ento, olhou para ele por entre os clios.
   - Est querendo dizer que no est interessado? - ela perguntou, em um tom que indicava que no acreditava nisso. - Seu corpo diz o contrrio.
   - Talvez no seja meu corpo quem est no controle aqui.
   Ela inclinou as costas, sentindo-se aliviada pelo fato de o movimento no ter causado mais que desconforto em sua plvis.
   - Talvez deva ser.
   - Droga, Theresa, o que est acontecendo?
   Ele nunca xingava na frente dela. Ela ficou to impressionada que novamente relaxou na gua. E se ele no a quisesse? Um homem podia no conseguir controlar as 
respostas do seu corpo, mas ele no precisava acat-las. No se essa no fosse o desejo de sua mente.
   Com medo de ter de implorar, caso falasse alguma coisa, ela saiu da banheira calada.
   - O que est fazendo? - ele perguntou com a voz rouca.
   - O que parece? Estou saindo. - Ele podia jogar um balde de gua fria nela, mas no precisava humilh-la.
   Ele emitiu um som que fez um frio correr na espinha de Theresa.
   - Fique onde est, sua maldosa provocadora.
   
   
   CAPTULO DOIS
   
   - No estava tentando provocar - ela negou.
   Ele retirou a gravata e comeou a desabotoar a camisa.
   - Imagine se quisesse.
   De repente, ela percebeu que ele no havia tentado jogar gua fria, mas pretendia entrar na enorme banheira com ela. Ela sorriu, aliviada.
   - Tem certeza disso?
   Ele tirou a cala e a cueca e revelou sua impressionante e rgida ereo. Ele realmente a desejava, mas, pela expresso de seu rosto, no estava contente com 
isso.
   Ele entrou na banheira e a puxou ao seu encontro em apenas um movimento, roando seu rgido membro contra ela em uma contenda sexual.
   - No tenho mais certeza de um monte de coisas em relao a voc.
   Ela abraou o pescoo dele, deleitando-se em seus fortes msculos e no calor de sua pele.
   - Pensei que sempre tivesse certeza sobre mim... sobre tudo.
   - Eu gostaria. - A boca dele procurou a dela e ela no encontrou a costumaz e sedutora astcia.
   Algo havia realmente o incomodado e ele mal conseguia se controlar. Seu marido ultra-urbano estava demonstrando um lado de sua natureza que sempre fizera questo 
de esconder cuidadosamente. Theresa duvidava que sequer ele soubesse que esse lado existia, embora ela sempre tivesse suspeitado disso. s vezes, ela via olhares 
quando estavam fazendo amor, mas essa fora a primeira vez em que viu o controle dele  risca. No se importava. Na realidade, ela adorava isso.
   Paixo descomplicada era tudo de que precisava agora para livrar a mente de pensamentos que no conseguia sustentar. Ela correspondeu ao beijo, deixando o desespero 
que sentia se traduzir em uma necessidade fsica que ultrapassava a retribuio  dele. Ele aprofundou o beijo de uma forma que sua lngua assumia total possesso 
da boca de Theresa.
   Ela deixou os dedos descerem pelos fortes contornos do peito dele, acariciando seus cabelos pretos e macios, e puxando-os ligeiramente.
   Ele afastou a boca.
   - Si, cara. Voc sabe o quanto gosto disso. Faa novamente.
   Ela fez e ento se inclinou para frente para provar a pele salgada dele com a ponta da lngua. Se ao menos ele a amasse, e no apenas se importasse com o que 
ela poderia lhe dar... Mas pensar nisso traria dor, e no prazer, e ela trancou a porta de sua mente, que tratava desse assunto com ferocidade.
   Ela se aconchegou nele, apreciando seu cheiro e a sensao de seu calor contra o rosto dela. Era to perfeito para ela fisicamente.
   As grandes mos dele apalparam o bumbum de Theresa e ele a levantou, roando sua ereo contra a juno das coxas dela, provocando uma resposta mida e pulsante 
em que ela se deleitou. Ela emitiu um gemido rouco. Sentia uma necessidade to intensa que enterrou os dedos na pele macia dele.
   Ela o amava tanto e por isso, nesse momento, ele era absoluta e totalmente seu.
   Ela pressionou os seios contra o peito dele e roou de um lado para o outro. A estimulao aos bicos rgidos de seus seios, juntamente com a forma como ele unia 
seus corpos intimamente, quase fora suficiente para lev-la ao orgasmo.
   De repente, ele se moveu dentro da gua com ela por cima do corpo, jogando ondas de gua aromatizada pelo cho. Ele abriu as pernas dela para que ela montasse 
nele, enquanto ele a puxava pelos quadris e a penetrava com vontade. Sua pontaria foi perfeita e ele a preencheu completamente em apenas uma investida.
   O corpo dela estremeceu com a sbita intruso, mas no chegou a doer.
   Parecia to bom, to certo... to apertado. Eles se encaixavam perfeitamente dessa forma... como seu corpo podia torn-la imperfeita para ele na forma que mais 
importava?
   Ele afastou a boca.
   - O que foi? Qual  o problema?
   Ela o fitou, os olhos ardendo com as lgrimas que jamais deixaria que ele visse.
   - Nada. Voc parece to incrvel dentro de mim - ela arfou.
   - Voc ficou imvel.
   - Sempre di um pouco no incio.
   Ele sorriu, com seu ego masculino inflado.
   - Sim, mas voc gosta, certo?
   - Adoro. - Adoro voc, ela sussurrou profundamente em seu corao. Para sempre.
   - Ento, deixe-me tom-la novamente. 
   - Sim.
   Ela deixou, excitada diante da falta de dor e desejando que assim continuasse durante toda a transa. J era cuidadosa para no deixar que ele fosse muito profundamente, 
e ele deixou que ela controlasse. Ela sempre brincava com ele assim, e era muito prazeroso para ambos.
   Inclinando a cabea para trs e respirando ofegante, o rosto dele se contorcia de prazer, quando ele disse:
   - Voc  muito boa nisso.
   - E voc  incrvel.
   Ele ficou rgido sob ela, com o corpo preenchido por uma tenso que no tinha nada a ver com prazer sensual. 
   - Ento, por que tem me rejeitado tanto ultimamente? - ele perguntou, com a voz ligeiramente tomada de emoo.
   Ela no tinha resposta... pelo menos no uma que estivesse pronta para discutir agora, quando o prazer. Estava  beira de fazer com que esquecesse de tudo ento, 
em vez de dizer algo que pudesse estragar tudo, ela o beijou. Ele retribuiu, e sua boca logo assumiu o controle e beijou os lbios dela, como se buscasse punio. 
No que ela no se sentia punida. Ela respondia com ardor e aumentou o ritmo da transa at sentir um prazer crescer dentro de si e parar na estratosfera, sentia 
que a sua mente fora esvaziada de pensamentos racionais, e seu corpo estremecia com a satisfao mais completa.
   Ele agarrou os quadris dela e penetrou uma vez, duas... trs vezes e a levou a um segundo orgasmo, to prximo ao primeiro que deixou seus pulmes vazios.
   Ele gritou e ela sentiu o calor dele dentro do seu corpo, antes de tomar ar e cair sobre o seu corpo, cansada.
   Ela beijou o peito dele.
   - Foi maravilhoso.
   - Sim - ele respondeu, respirando pesadamente. - Sempre .
   - Sim.
   - Ento, por que...
   Ela cobriu a boca dele com a mo.
   - Sem conversas. Vamos apenas curtir. Certo? 
   Ele franziu a testa.
   - Por favor - ela implorou.
   Ele assentiu com um movimento rpido de cabea. Ela sorriu e deixou a cabea recostar no peito dele novamente.
   - Gostaria que ficssemos assim para sempre.
   - Voc falou sem conversas.
   - Falei - ela o beijou novamente, pois no conseguiu evitar, e relaxou o corpo.
   As mos dele passaram dos quadris dela para as costas e ela se aconchegou no crculo dos braos dele, seus corpos ainda conectados da forma mais ntima possvel.
   Ento, ele a carregou para o box e eles fizeram amor novamente sob o chuveiro antes de tomarem banho e irem para a cama, onde ela adormeceu assim que deitou.
   
   Ela acordou sozinha e enterrou a cabea no travesseiro, sentindo o cheiro de Cludio.
   A noite anterior tinha sido incrvel. Ele a acordou de manh cedo e fez amor com ela com tanta ternura e gentileza que ela chorou quando gozou. Ele a abraou 
depois, acariciando suas costas e sussurrando em italiano o quanto gostava de seu corpo e o quanto era linda.
   Mas, depois de trs anos, ela percebeu que ser linda para ele no era suficiente. No era amor e no poderia durar para sempre, pois a beleza um dia acaba. E 
uma tima satisfao sexual poderia no superar a inabilidade dela de dar o que ele esperava. Herdeiros para o trono do Scorsolini. Era hora de contar a verdade. 
Mas, quando desceu, descobriu que ele havia viajado a Nova York a negcios. Ela havia se esquecido totalmente da viagem e no sabia se conseguiria esperar trs dias 
para resolver as coisas entre eles.
   Ela no deixou escapar o fato de ele ter partido sem se incomodar em acord-la para se despedir. De alguma forma, isso piorava a situao. Talvez porque fosse 
um forte indcio da falta de verdadeira intimidade na relao deles e de qualquer confiana concreta que ele tivesse nela.
   No havia nenhuma. Eles eram casados, mas ela no era mais necessria na vida dele do que seus empregados. Se no fosse pelo sexo, a relao deles no seria 
mais pessoal que as demais que ele tinha. E, quando no havia sexo, tambm no havia relao.
   Quantas viagens de negcios ele fazia mensalmente? Ele alguma vez havia pedido sua companhia? No.
   Ela era conveniente para ele e tinha de admitir isso.
   Mas, droga, doa.
   Precisava ser mais para ele. A nica esperana para o seu futuro era ela significar algo a mais para ele. O que significava que no havia esperana.
   Seu celular tocou e ela virou na cama para atender. Quando viu que era Cludio, seu corao acelerou.
   - Al.
   - Bom dia, bella.
   Por alguma razo, o elogio doa naquele dia, pela manh. Seria ela mais que um rosto e um corpo para ele? Ser que tinha valor alm da aparncia e da postura 
que sua me sempre insistiu que tivesse?
   - Bom-dia, Cludio. - Ela esperava ansiosamente que ele dissesse a razo da ligao.
   - Estou a caminho do hotel e queria que voc estivesse comigo.
   - Srio?
   - Si. No gosto quando nossas programaes nos separam.
   - Ento, por que nunca me convida para ir com voc? - ela perguntou, com uma esperana crescendo em seu corao.
   - Voc tem suas obrigaes. Eu tenho as minhas.
   - E as obrigaes sempre vm em primeiro lugar?
   - Elas so necessrias. So nosso dever.
   - Elas nem sempre so prioridade para Tomasso e Maggie, ou para Marcello e Danette. - Mas os irmos dele amavam suas esposas.
   Uma das coisas que mais haviam dodo nos ltimos meses fora ver como um prncipe Scorsolini apaixonado agia e no reconhecer esse tipo de comportamento de Cludio 
em relao a ela.
   - Nenhum de meus irmos ser o prximo rei de Isole dei Re. Eles podem colocar os deveres em segundo plano, eventualmente. O pas no depende tanto deles. E as 
esposas deles no tm tantos deveres quanto a minha. - Ele falava como um professor recitando a lio.
   A pacincia na voz dele era pior que um tapa em Theresa.
   - Sinto saudades - ela falou, sem disfarar.
   - Estou fora h menos de um dia.
   - Est dizendo que no sente saudades? - ela perguntou, desejando que a pergunta no soasse como uma lmina cortando suas entranhas. J era demais ele desejar 
que ela estivesse com ele.
   - Vou sentir sua falta hoje  noite.
   Se ele tivesse planejado no teria dito nada mais doloroso.
   - Na cama - ela falou diretamente.
   - Somos bons na cama.
   - Em nada mais? - ela perguntou, pela primeira vez no se esforando para esconder o quanto isso a chateava.
   - No seja ridcula.  minha esposa, e no minha concubina. Por que faz uma pergunta dessas?
   - Talvez porque esse seja o nico lugar em que sente minha falta.
   - Eu no falei isso.
   - Desculpa, mas falou.
   - No liguei para discutirmos. - O tom frio da voz dele era claro. - Mas, para seu conhecimento, no foi isso que eu quis dizer.
   Talvez ele no tivesse desejado dizer isso, mas disse. Os fatos falavam por si mesmos.
   - Por que voc ligou? Ns dois sabemos que no foi apenas para dizer oi. No espero esse tipo de ligao de sua parte.
   - Qual  o seu problema? Talvez tenha sido exatamente por isso que liguei.
   Ela no estava nem um pouco convencida.
   - Provavelmente, no.
   - Estava pensando em voc e queria ouvir sua voz, est bem assim? - ele perguntou, parecendo muito irritado com ela.
   Oh, droga. Ser mesmo?
   Claro que sim. Cludio nunca mentia conscientemente, mas, ainda assim, ela tinha de perguntar.
   - Isso  verdade?
   - No tenho o hbito de mentir para voc.
   - Sei que no. E  uma das coisas que mais aprecio em voc.
   - Voc pode dizer o mesmo?
   Ela ficou surpresa por ele ter feito tal pergunta.
   - Claro que posso. Voc sabe que no minto para voc.
   - Mas talvez no sinta que esconder informaes de mim seja o mesmo que mentir.
   Ser que ele sabia da doena dela? Impossvel... fora cuidadosa demais para manter tudo em sigilo.
   - No sei o que quer dizer. - Pelo menos isso no era mentira, mas tambm no era a verdade completa. Talvez ela tivesse mais caractersticas paternas do que 
poderia admitir.
   - Tem certeza?
   - Ningum conta tudo, mas isso no quer dizer que eu minta para voc - ela falou, defendendo uma posio cuja razo ele no entendia. Mas no havia como ela 
contar a notcia da infertilidade por telefone.
   - Espero que seja verdade, Theresa - ele suspirou. - Tenho outra chamada entrando. Preciso ir.
   - Est bem. Tchau, Cludio.
   - Tchau, bella.
   Ela desligou, mas, depois que se arrumou e saiu do apartamento, no conseguia parar de pensar no que ele dissera, no que ela respondera e no que no fora capaz 
de revelar. Ela devia a verdade a ele, tanto sobre sua doena quanto sobre seus planos a respeito disso.
   Ele ficaria aliviado. Teria que ficar.
   Mas uma pequena parte do seu corao esperava que, contra toda a lgica, ele no reagisse assim. Que ele se recusasse a deix-la fazer a coisa certa... a nica 
coisa lgica a fazer nessas circunstncias.
   - Vossa Alteza...
   Theresa despertou de seus pensamentos para encontrar sua secretria pessoal  sua frente.
   A lealdade de Ida era inquestionvel, sua discrio sem igual, assim como sua elegncia. Alm do mdico de Miami, ela era a nica que conhecia o resultado da 
laparoscopia.
   - Ida... preciso ir a Nova York.
   - Acho que posso cancelar seus compromissos. Se voc conseguir atender a primeira pessoa, pedirei a uma empregada que faa sua mala enquanto cancelo sua agenda. 
Voc e o prncipe precisam conversar. Apenas se lembre... um casamento no significa apenas ter filhos.
   - O meu, sim.
   - No pense assim.
   Ela gostaria de pensar como Ida, mas no podia.
   
   Ela chegou a Nova York naquela noite, com os nervos  flor da pele. Passou toda a viagem remoendo o que falaria a Cludio, mas no conseguia passar da primeira 
empreitada, pois sempre que pensava que ele concordaria com o final do casamento, sua garganta ficava apertada.
   Ela pediu aos seguranas para no alertarem seu marido sobre a sua inteno de unir-se a ele. Por alguma razo pensou que o elemento surpresa poderia ser um 
aliado. Ela fora informada de que ele estava no hotel, preparando-se para uma reunio  noite, quando o avio aterrissou. Parecia fortuito, e ela esperava que a 
reunio fosse um bom pressgio.
   Os seguranas permitiram que ela entrasse na opulenta sute. Ela estava muito ocupada tentando controlar suas emoes.
   Cludio estava colocando a gravata quando ela entrou.
   - Ol, caro.
   Ele fez um brusco movimento com o corpo, impressionado com a presena dela. Ento ele levantou a cabea e seus olhos escuros a analisaram com intensidade.
   - Theresa, o que est fazendo aqui?
   - Voc disse que gostaria que eu estivesse aqui.
   - No est aqui por causa da minha ligao hoje cedo. - A expresso dele no permitiu que ela ousasse contradiz-lo... para mentir.
   - No, no estou. Precisamos conversar.
   - Precisamos?
   - Sim - ela falou, tentando ignorar o fato de ele no lhe ter dirigido um cumprimento de boas-vindas.
   - Suponho que tenha algo a confessar que esteja pesando na sua conscincia o suficiente - ele falou, com a voz fria.
   Ela no sabia o que havia gerado sua hostilidade, exceto o fato de ela ter mudado sua programao. Cludio no gostava de surpresas, e ela trazia uma bem pior.
   - Pode-se dizer que sim - ela nem podia garantir que a notcia no seria ruim, pois era.
   Em um casamento como o deles, era uma sentena de morte e nada mais.
   Cludio voltou a fazer o que estava fazendo com uma fria preciso.
   - Ter que esperar. Tenho um jantar de negcios.
   - No pode cancelar?
   - Quer dizer, assim como voc cancelou todos os seus compromissos para vir at aqui a fim de termos uma conversa que poderia ter esperado os trs dias que eu 
ficaria fora?
   - Sim - ela no se importava com a forma como ele falava. Era exatamente o que ela queria.
   - Isso no vai acontecer.
   - Seria assim to ruim?
   - Obviamente, voc no pensa assim, mas eu no gosto do fato de minha mulher se esquivar de suas obrigaes.
   - E nossos deveres so a nica coisa que conta em nossa vida juntos?
   - O dever vem em primeiro lugar. Achei que j tivesse entendido isso.
   - Foi por isso que se casou comigo?
   - Voc j sabe que essa foi uma das principais razes para eu achar que voc se adequaria como minha esposa. Seus pais a criaram como se voc fosse uma verdadeira 
princesa.
   - Minha apreciao pelos deveres foi o que mais contou para voc... e claro, minha compatibilidade fsica - ela falou, com dor e amargura na voz.
   - Voc esperaria que eu me casasse com uma mulher que no entendesse ou no se adequasse ao papel de princesa e futura rainha?
   - Seus irmos no estavam to preocupados com essa convenincia quando escolheram suas mulheres - ela lembrou.
   - Como eu falei ontem, no sou meus irmos.
   - No, voc  o prncipe coroado, o que quer dizer que os deveres vm sempre em primeiro lugar.
   - Sabia disso quando nos casamos. No espero que isso seja uma razo para brigas entre ns.
   - Voc no espera que nada seja razo de briga.
   - Como voc  perspicaz - ele pegou um palet preto. - Preciso ir ou vou chegar atrasado.
   - Assim? Eu vim de Isole dei Re e voc foge de uma conversa importante porque a droga do seu compromisso o espera? - Como poderia contar quele estranho de expresso 
fria qualquer coisa, especialmente os detalhes ntimos de sua ltima ida ao mdico?
   - No fale nesse tom comigo! - ele exclamou, contendo-se para no demonstrar surpresa.
   Ela falou um palavro de verdade:
   - Voc quer dizer esse tom?
   - No sei qual  o seu problema, mas sugiro que o resolva. Vou voltar tarde. Se voc ainda tiver necessidade de falar sobre o que quer que seja, ento poderemos 
conversar.
   - E se eu no quiser esperar?
   - No tem alternativa.
   - Quando tive alternativa?
   - Voc optou por casar comigo. Ningum a forou a fazer os votos. Se eles esto desgastados agora, por favor, lembre-se de que no deve responsabilizar ningum 
alm de voc mesma pelas circunstncias, e no tolerarei que ignore suas promessas ou seu dever como minha mulher to facilmente quanto se esquivou de seus deveres 
como princesa hoje de manh.
   - Eles so a mesma coisa, no ? - ela perguntou, com uma voz carregada de raiva.
   - No - ele a encarou. - Voc tem obrigaes pessoais comigo que no tm nada a ver com suas responsabilidades com a coroa.
   - Talvez eu esteja insegura quanto s minhas obrigaes agora.
   O olhar de Cludio encheu-se de fria, mas sua: voz era controlada.
   - Sugiro que esteja certa deles quando eu voltar da reunio.
   - E se eu no estiver?
   - Ento, ns dois teremos uma noite muito desagradvel. Mas eu garanto a voc... minhas armas so sempre superiores s suas.
   - Voc  um maldito arrogante, Cludio - ela suspirou, dando vazo  raiva. - De qualquer forma, no subestime minhas armas, pois tenho uma pssima sensao de 
que elas podem ser melhores que as suas.
   Sua doena e a infertilidade decorrente dela eram como uma bomba nuclear, quando se tratava de poder para destruir um casamento.
   Ele empalideceu:
   - No tenho tempo para isso - e saiu.
   
   
   CAPTULO TRS
   
   Theresa ouviu a porta bater sem acreditar e sentou-se na beirada da cama, com as pernas trmulas.
   Ele nunca havia verbalizado o quanto ela significava pouco para ele, mas sua partida quis dizer muita coisa. Ele no tinha tempo para ela, a menos que ela desempenhasse 
o papel de princesa  perfeio ou o de concubina em sua cama.
   Lgrimas marcavam um caminho na face de Theresa.
   Ela no tinha um casamento. Tinha uma parceria comercial em que era a scia minoritria. E o scio principal no tinha o menor interesse ou desejo de renegociar 
os termos. Ela cumpriria seus deveres, seno... S que seno nesse caso era permanente e doloroso. E o que mais doa era que ela pensava que ele no se importaria.
   Ele simplesmente passaria para outro casamento comercial depois de destruir o corao dela sem sequer se dar conta disso.
   - Vossa Alteza, gostaria que eu pedisse comida? - perguntou um dos rapazes da segurana.
   Ela escondeu o rosto para que ele no visse as lgrimas e respondeu.
   - No, obrigada. Pode fechar a porta?
   A resposta foi o rudo da porta se fechando. Ela perdeu o controle quando a porta foi fechada e liberou suas emoes. Passara muito tempo se segurando, esforando-se 
para omitir palavras de amor que queria expressar, escondendo sua irritao diante das freqentes separaes impostas por Cludio em funo de sua agenda e, no ltimo 
ms, fingindo que as horrveis dores provocadas pela endometriose no existiam.
   Inicialmente, ela havia se convencido de que era apenas uma elica mais forte provocada pela interrupo das plulas. Mas depois, quando Cludio viajou a negcios, 
ela sentiu muita dor e, ao se ver sobre uma poa de sangue no banheiro pela manh, percebeu que havia algo errado.
   Ela foi ver seu mdico nos Estados Unidos, um costume que desenvolveu cedo no casamento, a fim de proteger sua privacidade. Era fcil para ela justificar viagens 
internacionais e esconder o verdadeiro objetivo de suas idas a Miami.
   O prognstico inicial do mdico fora bastante perturbador. Ele pensou que ela sofria de endometriose, mas a nica forma de saber realmente era fazer uma laparoscopia. 
Ela imaginou que poderia lidar bem com isso e aceitou uma prescrio para os remdios para dor at o ms seguinte, quando marcaria uma cirurgia.
   Ela recebera o resultado no dia anterior, juntamente com um grande balde de gua fria em sua esperana de que seria uma das sortudas que no sofrem tanto o impacto 
da doena. Aparentemente, sofria da doena h algum tempo, mas as plulas haviam amenizado o efeito. Havia muito tecido ao redor dos seus dois ovrios, e mesmo com 
a cirurgia para remov-lo, suas chances de engravidar naturalmente seriam inferiores a dez por cento. Mesmo que fizesse fertilizao in vitro, no havia garantias.
   Esses no eram o tipo de obstculos com que o prncipe coroado Cludio contava quando a obrigara a fazer os testes de fertilidade antes de anunciar seu noivado. 
Um futuro rei tinha responsabilidades para com seu trono e uma das mais importantes era fornecer um herdeiro para dar seguimento  linhagem. Ele esperava que ela 
fosse capaz de fazer isso com cem por cento de sucesso e ela acabara se descobrindo estril.
   Depois de ver a forma como a imprensa e a famlia Scorsolini haviam reagido diante da suposta esterilidade de Marcello, Theresa sabia que no havia chance de 
seu orgulhoso marido querer sofrer o mesmo pelo bem dela. E ela no esperava isso dele.
   Se ele a amasse, seria diferente, mas muita coisa seria diferente tambm. Amor no era uma emoo fcil de fingir, nem podia ser substituda pelo senso de dever.
   Cludio podia oferecer a continuidade do casamento, mas seu corao no estaria ali e ela no poderia viver com a sensao de que era um fardo para ele... uma 
fonte de humilhao ao seu orgulho real.
   Um soluo escapou de dentro de sua garganta e ela teve de levar a mo aos lbios para impedir que ele fosse ouvido no quarto ao lado. Sentindo-se como uma mulher 
velha, ela se forou a ficar de p.
   Tomaria um banho... pelo menos no banheiro teria privacidade para chorar.
   Depois de fechar a porta e ligar o chuveiro, ela pde chorar bastante. Ela enterrava a perda do seu casamento, a perda de suas esperanas de ser me e parava 
de lutar contra a dor decorrente de amar um homem que no a amava nem nunca amaria.
   Ela reprimiu cruelmente qualquer esperana de que tudo fosse ficar bem. No fundo do seu corao, sabia que no ficaria. Depois da reao de Cludio  sua repentina 
alterao da programao, no tinha mais a menor esperana de que seu casamento sobrevivesse a este revs.
   E isso a destrua. Alm de tudo, ela havia nutrido a tola esperana de que estivesse errada, de que, de alguma maneira, eles poderiam resistir ao tratamento de 
sua doena e dos problemas que ela traria. Ela no admitiu para si mesma porque teria dodo muito, mas agora que estava diante do fim do seu casamento, no tinha 
escolha a no ser reconhecer que a chama da esperana havia se apagado.
   Cludio no poderia ter deixado mais claro que no a amava. Todas as suas aes apontavam para as funes cuidadosamente definidas dela em sua vida, nenhuma delas 
ligada s suas necessidades emocionais. A menos que ele contasse com sexo e, ainda assim... ela no importava para ele.
   Theresa tinha muitas esperanas quando eles se casaram. Eles formariam uma famlia e ela conheceria o amor que nunca conheceu dos seus pais com os filhos que 
viriam. Tambm esperava que Cludio eventualmente viesse a am-la. Ela sempre quis isso, e agora no havia nada alm das cinzas de um fogo que a havia consumido 
por trs anos.
   Ela queria ser me. Queria muito. Por que ele quis esperar? Por qu? No era justo. Se tivesse engravidado logo no comeo, talvez a endometriose no tivesse 
se manifestado. Mas os "e se" eram inteis.
   Ela havia aprendido que eles tinham muitas limitaes. Ela queria dar  luz um herdeiro Scorsolini e educ-lo sabendo que o amor iluminava o caminho, e no os 
deveres, que havia mais na vida do que sua posio. Ela queria retificar os erros que seus pais haviam cometido com ela. Queria uma chance de amar, sabendo que as 
crianas a amariam, mesmo que seu pai nunca conseguisse faz-lo.
   Caindo de joelhos, ela chorou.
   - Meu Deus, isso no  justo! - As palavras ecoaram no box e no havia ningum para responder... ou, se Ele tivesse respondido, ela no ouvia a voz que vinha 
do paraso.
   Ela cobriu o rosto e chorou, mas, em algum momento, as lgrimas teriam de cessar. Ela chorou at secar. Desligou o chuveiro, com a garganta dolorida e os olhos 
quase embaados. No havia possibilidade de algum olhar para ela sem perceber como havia passado a ltima hora, mas ela no se importava. Cludio no voltaria to 
cedo e, quando chegasse, ela planejava estar dormindo. Estava cansada demais, esgotada emocionalmente.
   Ela no havia notado o quanto era exaustivo fingir contentamento at permitir que tudo fosse embora. Com os membros doloridos, ela vestiu uma camisola e se deitou, 
sem se importar com o horrio - apenas sete da noite.
   Sem pensar, sua mo automaticamente procurou o outro lado da cama, mas  claro que estava vazio. Como havia ficado em tantas noites durante o casamento e ficaria 
todas as noites quando ela sasse de Nova York. Um soluo seco parou em sua garganta e ela o engoliu novamente, mas ensopou o travesseiro com lgrimas silenciosas 
antes de cair no sono. Ela pensou que as lgrimas jamais fossem acabar...
   Ela acordou mais tarde, com o som do chuveiro e a luz vinda pela porta entreaberta do quarto. Eram nove horas. Ela piscou, tentando imaginar o que aquilo significava. 
Era mais cedo do que ela supunha que ele voltaria, mas no to cedo para ela pensar que ele havia voltado por causa dela.
   O chuveiro foi desligado e, um minuto depois, Cludio entrou no quarto totalmente nu e secando os cabelos. Ele se inclinou para acender o abajur do seu lado, 
iluminando seu corpo bronzeado com a meia-luz.
   Ela sentiu a boca seca ao perceber desejo e necessidade emocional apertarem em sua barriga. No havia mais lugar para desgaste dentro dela, mas, ainda assim, 
ele crescia, como se seu corao j no estivesse dizimado.
   Ele jogou a toalha para o lado e olhou para ela. E ento parou ao perceber o olhar dela.
   - Est acordada. 
   - Voc voltou.
   -  claro.
   Ela estremeceu diante do sarcasmo.
   - Como foi a reunio?
   Ela no se importava, mas nada mais veio  sua mente e o silncio absoluto no funcionaria. Alm disso, ela no tinha dvidas de que a reunio fora exatamente 
como ele havia previsto. Ele era esse tipo de homem. Era necessrio um forte desejo como a inteligncia de Scrates e Einstein combinadas para derrubar os planos 
de Cludio.
   "Ou um sistema reprodutivo rebelde de uma mulher", zombava uma voz em sua mente. Ele no poderia lutar contra isso, independentemente do quanto fosse teimoso 
e inteligente, poderia? E mesmo que pudesse, no iria querer. Ela teria de fazer tratamentos que poderiam ou no ser bem-sucedidos para gravidez, e a imprensa aproveitaria 
tudo isso.
   Ela no podia suportar o pensamento do que isso significava e sabia que ele no toleraria tamanha intruso em sua vida.
   - Foi como eu esperava. Roberto falou que voc no jantou.
   - Comi no avio.
   - Uma xcara de caf com dois biscoitos no  jantar.
   - Foi o que eu quis.
   - Est doente? - ele perguntou de uma forma to direta, sem o menor trao de compaixo e preocupao, que ela estremeceu novamente. - Se est, no deveria estar 
viajando.
   - No se preocupe, no vou passar gripe nem nada para voc. No estou doente.
   - Esperava que estivesse acordada quando eu voltasse, mas no estava.
   - Eu no tinha como saber a que horas voc voltaria.
   - Passa um pouco das nove horas - ele afirmou isso como se no pudesse acreditar que ela fosse para cama to cedo.
   Se ele soubesse que ela tinha ido se deitar por volta das sete horas, teria certeza de que estava doente. Ela no via razo para esclarecer nada.
   - Estava cansada.
   - Est grvida? - ele perguntou com a mesma falta de emoo que empregou para saber se ela estava doente.
   As palavras a apunhalaram. E no havia nenhum sentimento de antecipao nos traos dele, nenhum aviso diante da possibilidade, o que a magoava tanto quanto todo 
o resto.
   - No. No estou grvida - ela forou-se a dizer.
   - Tem certeza? 
   Theresa tinha certeza.
   - Sim.
   - Ento esse comportamento estranho  resultado da tenso pr-menstrual?
   Sem dvida, grande parte do que ela sentia era causada pela influncia do desequilbrio hormonal.
   - Se isso o deixa contente, sim.
   Guiada ou no pelos hormnios, a certeza de que seu casamento chegara ao fim era real. A falta de amor dele era um fato. O imprevisvel sistema reprodutor de 
Theresa no era semelhante ao dos sonhos dela, e a dor que sentia por dentro era fsica, o que dificultava sua respirao.
   Ele fez um movimento impaciente.
   - Nada nessa situao me deixa contente.
   - Sinto muito.
   - No quero desculpas. Quero uma explicao. Voc falou que tinha algumas coisas para conversar comigo, mas volto para o quarto e a encontro dormindo.
   - Isso  crime?
   - No, mas no est fazendo sentido algum para mim agora.
   - Deus me perdoe se no sou mais adequada ao papel que atribuiu a mim em sua vida.
   - No fiz nada para merecer o seu sarcasmo.
   - Exceto recusar-se a me ouvir.
   - No seu cronograma. Estou aqui agora. Pronto para ouvir. - Ele espalhou as mos em um gesto expansivo que tambm serviu para chamar a ateno dela para a beleza 
do seu corpo nu.
   Ela sentiu as lgrimas queimarem a parte de trs de seus olhos. Sentiria tanta falta dele, e sequer ficava constrangida em admitir que parte dessa saudade seria 
pela necessidade fsica que deixaria de ser correspondida. Porque, para ela, o desejo era parte do amor, e ela sentiria saudade dele das duas formas.
   Ela suspirou, tentando respirar e vivenciando um tipo diferente de dor do que a vinha consumindo seu corpo h alguns meses.
   - Percebi que fui uma idiota vindo at aqui para conversar com voc. Esperar trs dias no vai mudar nada. No tenho nem certeza se h necessidade de falarmos 
sobre o que eu queria.
   Na realidade, ela apenas queria contar a ele sobre a sua doena e deixar que ele agilizasse os papis da separao. Mas depois do holocausto emocional no chuveiro, 
ela no tinha condies de discutir com ele. Suas reservas emocionais haviam se esgotado e ela simplesmente no podia enfrentar o fato de contar a ele que falhara 
como mulher, como esposa, especialmente diante da bvia hostilidade dele.
   - Por que isso? - ele perguntou com um tom perigosamente macio na voz que ela estava muito exaurida para compreender. Ele no deveria ficar aliviado por ela no 
querer demonstrar seu lado emocional a ele?
   - Algumas coisas no podem mudar - independentemente do quanto desejasse.
   - E que coisas so essas? 
   - Prefiro no falar sobre isso agora - ela admitiu, com uma voz evasiva demais at para si prpria.
   Em um movimento que ela no esperava, ele veio para o seu lado na cama a uma velocidade incrvel e a levantou.
   - Que pena, porque eu quero.
   Ela engasgou e abraou o pescoo dele para impedir-se de cair.
   - Nem sempre as coisas so do seu jeito.
   - Este no  um conceito que eu reconhea.
   - Ento j  hora de reconhecer. Ele apertou-a num abrao.
   - Pare de jogar e me fale o que est fazendo com que aja de forma to diferente do seu carter.
   A fria que sua voz carregava dizia que sua pacincia havia acabado. E seu olhar duro dizia que no desistiria enquanto ela no falasse. Independentemente do 
que ela quisesse e do quanto fosse duro para ela, ele no sossegaria sem ouvir o que queria.
   Ela sabia disso e finalmente aceitou. Havia comeado isso tudo e agora tinha de acabar, mesmo querendo adiar a revelao. Mesmo tendo se arrependido de sua 
impulsiva deciso de ter ido a Nova York. Ela sentiu lgrimas presas na sua garganta e sabia que no poderia contar a ele sobre a sua deficincia sem que se emocionasse. 
S havia uma coisa a dizer.
   E ela no sabia como fazer isso.
   Sentindo-se pressionada pela resistncia de seu estado emocional atual e maravilhada pela simples sensao de ser mantida presa nos braos dele, com a certeza 
de que seria a ltima vez, ela acabou explodindo:
   - Temos que nos divorciar.
   Com os olhos tomados de uma raiva hostil, ele a largou em um ato de intenso repdio, provocando um n no seu estmago, para somar-se a todas as demais dores que 
sentia. Se ela no tivesse se agarrado a ele para obter apoio, cairia direto no cho.
   Mas ele se afastou do toque dela com grande desdm.
   - Sua cretina!
   Ela nunca o vira to irritado, e isso a assustava.
   - Eu... eu tenho que contar...
   - S vai se divorciar de mim por cima do meu cadver - ele interrompeu com uma voz mortal.
   Ela ficou boquiaberta, mas no conseguiu falar nada. Ela tentou, mas as palavras no saam. Tudo aquilo era muito doloroso. Nunca acreditou que teria de dizer 
essas palavras a ele. Teria feito qualquer coisa, dado qualquer valor em dinheiro... at mesmo anos de sua vida para no ter de dizer isso. E, diante da pssima 
resposta dele ao seu pedido de divrcio, ela no conseguia falar a verdade sobre a sua total falha como mulher.
   Ele a magoara muito e no sobrara nenhuma esperana dentro dela para que pudesse compartilhar com ele suas emoes.
   E a dureza da reao dele a confundia... dificultava seu raciocnio, enfrentar o que devia ser dito. Ela simplesmente no esperava que ele reagisse com tamanha 
irritao. Afinal de contas, eles estavam discutindo a dissoluo do que ele considerava um contrato comercial. Nada mais.
   Para ele. Para ela, era o fim de tudo de lindo em sua vida.
   A menos que... talvez o casamento fosse mais importante para ele do que ela pensava. Seria verdade? Ser que a reao dele significava que, no fundo, ele se 
importava? O corao dela dava saltos no peito... Ser que ela o havia interpretado mal desde o comeo? Todas as evidncias que compilou no pensamento diziam que 
ela no era importante para ele no plano pessoal, no por quem era, a pessoa interior que ansiava ardentemente por seu amor.
   Mas ser que ela havia entendido tudo errado? No conseguia ver como. Ela sacudiu a cabea. Simplesmente no era possvel. Talvez ela tivesse interpretado mal 
algumas palavras aqui e ali, mas no todo um estilo de vida que continuamente demonstrava o quanto ela representava pouco na vida dele. E nada poderia ser mais 
convincente do que saber como um homem Scorsolini reagia ao amor, pois ela observava os irmos mais novos de Cludio.
   Porm, ele reagia como se o fim do casamento realmente importasse.
   - Por que est to irritado? - ela perguntou quase em um sussurro, tentando no criar esperanas novamente.
   Ele olhou para ela com uma incrdula fria.
   - Acabou de me dizer que quer o divrcio e me pergunta isso?
   - Sim - a resposta dele significava muita coisa, e ela tremia de medo e antecipao do que poderia ser.
   - Eu tinha certas exigncias quando procurei uma mulher, voc sabia disso - ele falou entre os dentes.
   - S-sim - no parecia promissor.
   - Uma dessas exigncias era que minha mulher compreendesse e aceitasse a importncia dos deveres e sacrifcios na felicidade pessoal pelo que fosse melhor para 
Isole dei Re.
   - Voc estava sacrificando sua felicidade pessoal ao se casar comigo? - ela perguntou dolorosamente.
   Ela sempre imaginava. E se ele desejava uma mulher diferente? Uma que fosse mais animada e empolgante? Uma mulher que no necessariamente fosse uma princesa 
ideal, mas que correspondesse  feroz paixo que borbulhava sob a slida superfcie do dever dele?
   - A felicidade nunca vem, de uma forma ou de outra.
   Sofrendo, ela falou:
   - Para mim, vem. Fiquei feliz por me casar com voc. Eu o queria mais do que poderia imaginar.
   Por alguma razo, as palavras dela fizeram com que ele vacilasse.
   - Mas agora voc quer o divrcio. Seu desejo por mim, essa felicidade que voc menciona, tiveram vida curta. No duraram nem trs anos completos. E o que foi 
que eu deixei de oferecer a voc que tenha prometido?
   - Nada - ele no se esquivara de nada, a no ser do seu amor, e isso nunca fora parte da oferta da barganha.
   - Ento, concorda que no deixei de cumprir  minha parte em nosso acordo de casamento?
   - Sim, concordo.
   - Tambm sabe que se casou comigo ciente de que seria para a vida toda?
   - Sim, claro.
   Ele parou imponente diante dela, com sua fria ainda mais poderosa, pois estava maravilhosamente nu e nem um pouco envergonhado por isso.
   - Ento, tambm deve aceitar que no vou permitir que renegue o compromisso que firmou comigo.
   - s vezes, acontecem coisas que impedem que o acordo d certo.
   - No no nosso casamento, elas no acontecem.
   - Acontecem. Aconteceram. Eu... - a garganta dela fechou. Tinha que dizer, mas doa mais do que podia imaginar.
   - No fale - ele gritou. - Nunca vou deix-la ir.
   Ela o encarou.
   - No quer dizer isso - ela desabafou.
   Ele se esquivou dela, todo o seu corpo vibrando com uma ira palpvel que ela ainda no conseguia entender.
   - No vai se esquivar do nosso casamento e me tornar o segundo soberano da famlia Scorsoiini a experimentar o divrcio. Entendeu? - ele gritou com uma voz dura 
e fria. - No vou deixar que faa de mim motivo de chacota.
   Finalmente, ela compreendeu. No era o corao dele que sofria; era seu orgulho. Ele no precisava dela, somente do casamento, pois no queria passar por idiota. 
Ela sentia raiva dentro da alma. E agonizara diante da possibilidade de perd-lo, mas ele apenas se importava com sua imagem na comunidade internacional.
   -  isso o que conta para voc? Que as pessoas o comparem com seu pai?
   Ele virou para encar-la, com uma mscara de pedra no rosto.
   - Meu pai quebrou seus votos de casamento. Eu no quebrei os meus. No vou deixar que se divorcie de mim simplesmente porque quer quebrar os seus... ou j o fez?
   A nfase que ele deu  ltima frase causou calafrios em Theresa e ela teve de respirar fundo para conseguir falar.
   - No tenho alternativa.
   Ele pronunciou uma frase que a deixou paralisada.
   - Sempre temos alternativas, voc est escolhendo a opo errada. Voc me prometeu um herdeiro para me suceder no trono. E agora? - ele perguntou completamente 
decidido.
   Ela quase sufocou diante da dor gerada por essas palavras. No podia dar a ele esse herdeiro e as palavras dele reiteravam o nico fato que se mostrava requisito 
fundamental para ela como mulher dele.
   - Eu no queria que fosse assim. Por favor, acredite em mim.
   Mas ele parecia mais capaz de estrangul-la do que de compreend-la. Mesmo sabendo que nunca o faria, que nunca a machucaria fisicamente, ela se pegou recuando 
diante dele.
   Ele cerrou ainda mais os dentes.
   Bateram  porta e ela se assustou.
   - V embora - gritou Cludio.
   Ela nunca o ouvira usar esse tom e sabia que, se estivesse do outro lado da porta, teria atendido, mas depois de um breve momento, a batida se repetiu.
   - Vossa Alteza,  extremamente urgente. Cludio reclamou em italiano. Ento, colocou o robe preto e abriu a porta.
   - O que foi?
   Ela no conseguiu entender o que o rapaz da segurana falou, mas ouviu os xingamentos vindos da boca do marido, enquanto seu corpo estremecia como se tivesse 
recebido um soco.
   - Cludio... o que foi? - ela perguntou.
   Mas ele apenas sacudiu a cabea e abriu toda a porta, obviamente planejando sair do quarto. Ele parou na sada e olhou por cima do ombro com uma expresso furiosa.
   - Isso no acabou.
   O segurana olhou para Cludio preocupado e olhou para Theresa curioso, antes de acompanhar o patro ao outro quarto. Theresa no sabia como agir em relao a 
outro confronto com Cludio ou quilo que acabara de interromp-los.
   E, pela segunda vez na noite, ela ficou sem ao no meio do quarto, lidando com fortes emoes depois que ele a deixava. Ela no podia imaginar o que seria mais 
importante que o fim do casamento deles, mas poderia ser qualquer coisa, ela notou tristemente. No entanto, ela reconheceu que devia ser algo muito importante, 
para a segurana ter interrompido mesmo depois de uma represlia de Cludio.
   Ela caminhou pelo quarto, sentindo-se na Terceira Guerra Mundial, sem saber exatamente se era uma sobrevivente ou no. Embora nem ela nem Cludio tivessem levantado 
as vozes um para o outro. Porm, mesmo com o tom baixo, ningum duvidaria do quanto estava furioso com ela, do quanto estava determinado a manter o casamento pelas 
aparncias.
   Ela esfregou os olhos sentindo-se cansada, apesar de ter sido acordada depois de um longo cochilo e de ainda no ser to tarde. Foi to estpida em pensar que 
poderia significar algo para Cludio em um nvel pessoal. A principal razo para ele querer manter-se casado com ela era o fato de no querer ser o segundo Scorsolini 
da histria a ser deixado pela mulher.
   Sob a perspectiva dele, ela no tinha o direito ou razo para humilh-lo dessa forma. Ele lutara para se casar com uma mulher que cumprisse seus deveres  risca. 
Ela se lembrou de quando ele lhe contou sobre o divrcio da madrasta com o pai.
   Theresa ficou impressionada com o fato de a mulher ter ido at as ltimas conseqncias. Ela cresceu cercada por casais que se mantiveram casados em circunstncias 
similares pelo bem da unio poltica. Agora, ela percebia por que Cludio apreciava tanto essa atitude. Embora fosse totalmente comprometido com a fidelidade, ele 
gostava de saber que ela fora treinada para acreditar que os votos do casamento deveriam durar por toda a vida, apesar das diferenas pessoais. O dever em primeiro 
lugar, sempre.
   E essa foi exatamente a razo de Theresa pedir o divrcio, mas ele no sabia disso. Quando soubesse, ele ansiaria por um fim no casamento e buscaria divrcio 
por conta prpria.
   Theresa, lentamente, sentou-se em uma das poltronas, tomada pelo cansao.
   Ela no poderia ter agido de forma pior em um confronto com ele. Em vez de ter contado sobre a sua doena e quase certa infertilidade, falou que eles teriam de 
se divorciar. Embora aquilo devesse ser verdade, no era a primeira coisa que devia ter dito a ele.
   Ele pensou que ela queria o divrcio, o que no podia ser mais distante da realidade, mas o dever dizia que ela deveria abandonar o homem que amava pelo bem dele 
e do pas. As palavras finais dele antes de terem sido interrompidos diziam isso. Ele precisava de herdeiros. Ela no podia garanti-los. A probabilidade de concepo 
no era suficiente para um futuro rei.
   Esses fatos deixaram seus sonhos em pedaos. Por que a vida era to dura? O que havia feito de errado para provocar essa tristeza a si mesma? O mdico dela falou 
que no era pessoal, a endometriose ocorria em milhares de mulheres, mas ela sentia que era algo pessoal.
   Especialmente quando os resultados da doena estavam destruindo sua vida em um caminho de dor e sofrimento.
   E essa foi sua nica desculpa para a forma como lidou com as notcias. Estava sofrendo muito, sua usual diplomacia a castigava tanto... Seu pai teria ficado bastante 
envergonhado, embora nunca tivesse se importado muito com ela.
   Os psiclogos sempre dizem que as mulheres se casam com homens parecidos com seus pais e ela estava determinada a no agir assim. Sempre acreditou que tinha sido 
bem-sucedida ao se casar com um homem bem diferente, mas agora percebia ter feito exatamente o oposto. Casou-se com um homem to pouco interessado nela quanto seu 
pai.
   Olhando para trs, para os quase trs anos de casamento, ela via que Cludio empregava meios sutis de demonstrar que ela ocupava um lugar insignificante na sua 
vida tambm. Ela simplesmente no via os sinais porque queria desesperadamente que eles dissessem algo diferente. Como ele precisava dela das formas mais bsicas 
- sexualmente e como uma aliada  sua posio -, ela acreditava que ele tinha mais sentimentos por ela que seu pai.
   No podia sequer culp-lo por t-la decepcionado. A desiluso fora consumada por si s. Mas reconhecer isso no causava menos sofrimento.
   Falando sobre ser uma idiota, Theresa assumira muito bem esse papel, admitindo que doa quase tanto quanto a rejeio de Cludio.
   E a atitude dele no fora menos que isso. Ele queria manter o casamento intacto, mas apenas por causa do seu orgulho e pelo beb que ele esperava que ela lhe 
desse. No porque quisesse mant-la como esposa. No porque ela significasse alguma coisa.
   Ela estremeceu, todo o seu corpo tremia violentamente e acabou se dando conta de que estava muito fria. Era um frio que vinha l de dentro, mas, mesmo assim, 
ela se levantou e se cobriu com o cobertor da cama. No adiantou.
   Sentir-se to sozinha enquanto esperava no era uma opo, e ela sentou na poltrona... e esperou.
   Cludio falou que no tinham acabado e, por mais que no quisesse dar continuidade  briga, ela no tinha dvidas de que era o que aconteceria quando ele voltasse. 
E, mesmo que doesse muito, que as respostas dele fossem tomadas de orgulho... ela lhe devia uma explicao.
   No saberia dizer quanto tempo ficou ali, com os pensamentos divagando no crebro. Podem ter sido alguns minutos ou uma hora, mas em algum momento ele voltou 
para o quarto com uma expresso que ela jamais vira antes e disse:
   - Vista-se.
   
   
   CAPTULO QUATRO
   
   - O qu? Por qu? - Ele estava expulsando Theresa da sute porque ela havia pedido o divrcio? Isso no fazia sentido.
   - Precisamos voltar para Lo Paradiso imediatamente.
   Ela pulou da poltrona, apertando o cobertor com fora em volta do corpo.
   - Aconteceu alguma coisa?
   - Meu pai teve um infarto.
   - No. - O rei Vicente, no. - Como ele est?
   - Estvel, mas precisa de uma cirurgia para colocao de um marca-passo. Est no hospital - Cludio falava entre os dentes, com o olhar acusatrio. - Est sozinho, 
sem a famlia por perto, pois voc resolveu vir para c sem motivo algum.
   - Onde est seu irmo?
   - A caminho, agora que liguei para ele. O papai no permitiu que ligassem para ele e s permitiu que me avisassem depois que ficou estvel. Se voc estivesse 
l, isso jamais teria ocorrido.
   Ela engasgou.
   - No pode me culpar por ele ter enfartado.
   - No, mas se voc estivesse l, teria ligado para mim e para o meu irmo, apesar dos desejos do meu pai. Ele no lhe daria ordens como a um criado.
   - Tem certeza? - Talvez o rei no tivesse solicitado sua submisso como se ela fosse uma criada, mas ela se importava com ele e podia muito bem ter concordado 
para evitar mais estresse.
   Mas ento ela pensou que certamente faria o que julgasse correto... o que talvez fosse ligar para Cludio. Ela e o resto da famlia estavam acostumados a contar 
com ele em momentos de crise. Na realidade, sua primeira reao ao sentir as primeiras dores abdominais teria sido recorrer a Cludio.
   Ela havia decidido tomar o curso contrrio diante da necessidade de proteg-lo.
   - Sim, tenho certeza. Voc teria me ligado, mesmo contra a vontade do papai - Cludio respondeu, mostrando que a conhecia bem de todas as formas, menos da que 
mais importava para ela.
   Ele no sabia do amor dela por ele e no podia se importar menos com sua existncia, ela admitira dolorosamente.
   - Voc foi avisado agora - ela observou.
   - E se ele tivesse morrido? E se for pior do que o que ele me falou?
   - Eu no poderia ter controlado nenhuma das situaes, e no tenho dvidas de que voc j conversou com o mdico e sabe exatamente quais so as condies do 
seu pai.
   - Falei, e no so boas. Voc deveria estar l - ele repetia, como se essa traio fosse mais grave que o pedido de separao.
   - No est sendo justo. Sabe que eu precisava vir. Precisava conversar com voc.
   - Sobre quebrar suas promessas. E, ainda assim, quando voltei da reunio, voc j havia decidido que a conversa podia esperar. O que era imperativo no foi to 
importante para voc. Voc partiu em um capricho egosta e meu pai pagou por isso. Eu fiz um pssimo clculo quando a pedi em casamento - ele falou, colocando um 
ponto final na discusso.
   Entretanto, ela estava muito tomada pela prpria raiva diante da reao dele pela doena do pai para sentir a dor que aquelas palavras teriam causado h algumas 
horas.
   - Entendo por que pensa dessa forma - ela falou, suspirando. - Mas ainda preciso lhe contar algo.
   - No quero ouvir.
   - Voc precisa.
   O desdm da expresso dele dizia tudo. Ele no ouviria as explicaes dela.
   - Vou sair em dez minutos. Se quiser ir comigo, vista-se.
   
   Theresa passou as duas primeiras horas de vo remoendo a raiva. Ela escolhera um assento o mais longe possvel dele, sem se importar com o fato de ele ter demonstrado 
satisfao com sua atitude. O comportamento dele era tudo, menos exemplar.
   Quando dera motivos a Cludio para ele acreditar que ela fosse caprichosa e egosta? Ela havia cumprido seu papel como princesa, ignorando suas necessidades 
pessoais reiteradas vezes, mas, aparentemente, dois anos como a perfeita filha do diplomata e aliado poltico viraram fumaa diante do primeiro ato que ele no aprovava.
   Ser que ela, como esposa, no merecia o mnimo de considerao? Mas ele deixou claro... antes de tudo, ela era princesa. Seu papel como esposa era sempre ofuscado 
pelo papel principal como sua futura rainha. Reconhecer isso arrasava o que ainda restava do seu ego feminino.
   Ela havia demonstrado ousadia ao reorganizar sua agenda por algo que julgava importante e ele destrura tudo. No apenas isso, ele simplesmente sups que as 
razes para ela pedir o divrcio teriam sido egostas e falsas. Por qu? Como mulher, sempre deu a ele tudo de que precisava, mesmo quando ele no notava. Quando 
foi que ela tomou alguma atitude em relao a ele baseada no egosmo? Mesmo a sua deciso de casar-se com ele foi tomada com a conscincia de que seria o tipo de 
mulher que ele queria.
   Ela o amava, mas no teria se casado com ele se no soubesse que ele no a amava, caso no conseguisse ser esse tipo de mulher. Olhando para trs, para ver o 
quanto sofrer pelo que era melhor para ele, dedicando muito pouco tempo a si mesma, ela refletia se era masoquista ou uma perfeita idiota, ou se tinha ambos os 
defeitos.
   Mas ela havia passado toda a vida tentando agradar as pessoas. Primeiro seus pais, cada um com expectativas diferentes para a vida dela. Ela preencheria as 
da me, pois seria a nica forma de obter xito.
   A me dela dissera vrias vezes que a beleza e o porte de Theresa eram sua principal arma e que ela devia us-la com cautela. Isso foi fcil. A beleza fsica 
fora uma providncia divina, e porte era algo que uma filha de diplomata no poderia deixar de ter na escola.
   Esses atributos chamaram a ateno de Cludio, mas mesmo suas maneiras perfeitas e seu discernimento poltico no foram suficientes para balan-lo nos votos 
do casamento. Ele queria ter certeza de que ela no o desapontaria na cama e a testou nesse quesito.
   Cludio mo amou Theresa quando a cortejou, pensando em casamento. Ele a beijava e tocava com uma paixo animalesca, provocando respostas que ela aprendera a 
aceitar, mas que inicialmente a chocaram e assustaram. Ficar to  merc dos desejos do seu corpo ia de encontro  forma como fora criada, que demandava esconder 
os sentimentos.
   Na realidade, ela provavelmente no teria permitido que seu amor por Cludio florescesse se ele no tivesse provocado sua sensualidade latente. Ela ultrapassou 
suas barreiras emocionais e deixou seu corao totalmente sob a influncia dele.
   Agora ela pagaria o preo por sua fraqueza.
   A vulnerabilidade sempre tinha um preo. Seu pai vivia repetindo isso, e sua me... pensaria em palavras diferentes? Mas ela no teve foras para impedir-se 
de apaixonar-se pelo prncipe que tinha um corao feito de pedra.
   O custo desse amor era seu corao despedaado.
   Saber da doena do rei Vicente aumentou o nvel de sofrimento do seu corao. Ela amava o sogro de uma forma que nunca amou o prprio pai. E o rei Vicente a 
aceitara de uma forma como seu pai nunca o fez. Ele admirava sua fora feminina e sempre falava isso a ela.
   Quando ele pensou que ela estivesse sendo negligenciada, fez comentrios sobre o comportamento de Cludio em relao aos seus deveres de uma forma nada elogiosa. 
Ele foi seu aliado por trs anos e, se o perdesse agora, ficaria arrasada. E isso tambm significaria que a necessidade de Cludio de ter um herdeiro viraria uma 
urgncia.
   Cludio falou que o estado do pai era estvel, mas ela sabia o quanto os problemas de corao podiam ser imprevisveis. Por mais que considerasse as acusaes 
de Cludio injustas em relao a ela, se soubesse que a sade do sogro estava ameaada, teria esperado o retorno do marido de Nova York para falar sobre o fim 
do casamento.
   Porque adorava o rei Vicente, que era um pai melhor que seu pai biolgico jamais fora, e no permitiria que ele fosse parar sozinho em um quarto de hospital, 
preocupado com a prpria vida.
   As lgrimas dela foram suficientes para fazer seu corao tremer. Alm disso, ela ainda se ressentia da forma como Cludio havia acabado com qualquer esperana 
de ela significar algo mais em sua vida do que um corpo na cama e uma aliada.
   Ela, honestamente, no pensava que poderia suportar uma guerra silenciosa contnua com o marido. Porm, quando falasse sobre a endometriose, pelo menos isso 
teria fim. Ele ficaria um pouco desapontado. Poderia at v-la como uma total derrota feminina, como ela mesma se via, mas no ficaria mais furioso.
   A raiva de Theresa dizia que ela no devia se importar, mas seu corao estava muito sensvel, devido s feridas recentes, para suportar mais, e ela era esperta 
para perceber isso. Alm disso, era totalmente possvel que no conseguisse mais esconder a dor fsica causada pela endometriose quando ficasse menstruada.
   Pelo menos, se contasse agora, no teria de lidar com as revelaes em um momento delicado para faz-lo. A cada ms piorava e, at fazer a cirurgia, continuaria 
assim. Embora ele provavelmente no fosse gostar de ouvir a verdade, no poderia ser pior que ele acreditar que ela o estava abandonando por egosmo.
   Ela se moveu para sentar-se ao lado dele, irritada, e a necessidade de deixar as coisas claras entre ambos ainda brigava dentro dela.
   - Cludio.
   Ele olhou para ela com um frio olhar.
   - Oi.
   Lembre-se de diplomacia e tato, ela dizia a si mesma.
   - No quero preocup-lo ainda mais, porm...
   - Ento no me preocupe.
   - O qu? - ela perguntou, sem esperar uma interrupo desse jeito. Afinal, apesar da forma como ele agira mais cedo, ele tambm fora treinado a manter a diplomacia 
desde a infncia.
   - Est querendo me contar por que quer se divorciar, no ?
   - Sim.
   - No conte.
   - Mas eu preciso.
   - No quero ouvir.
   - Mas...
   - Voc ter o divrcio, Theresa, mas espere at a sade do meu pai ficar estvel o suficiente para suportar a notcia de que sua adorada nora tem ps de argila. 
At l, continuaremos com a fachada do nosso casamento. Capice?
   - No, no entendo. No entendo nada - ela admitiu, confusa pela terceira vez em uma noite pelas reaes dele. Era como se ele fosse um homem totalmente diferente 
do que aquele que havia se casado com ela. - Pensei que tivesse dito que nosso casamento s terminaria por cima do seu cadver.
   - Mudei de idia.
   - Posso perceber, mas por qu?
   - Voc no foi a nica a ficar entediada pelo protocolo, mas eu no fiz nada para voc pensar que eu seja um idiota por causa dos meus deveres.
   E ela pensou que estivesse acostumada com muita dor. Que piada! Ela sentia como se seu corao estivesse sendo arrancado do peito.
   - Eu nunca falei que estava entediada.
   - Mas eu estou. - Ele fez um gesto com as mos que indicava que seu casamento no significava nada. - A verdade  que estou muito contente em lhe conceder o 
divrcio, mas como eu disse... ter que esperar at a melhora do meu pai. Acredito que possa viver com essa limitao.
   - Voc quer o divrcio? - ela perguntou, registrando apenas essas palavras.
   Essa era a pior situao que poderia prever. Ela pensou que pudesse ser possvel que ele aceitasse a soluo dela com dolorosa resignao, mas nunca imaginou 
que daria boas-vindas a ela. Que ele havia ficado entediado ao seu lado.
   - Voc  linda, Theresa, mas um homem precisa de algo mais que um rosto lindo e maneiras impecveis  mesa para amenizar a perspectiva de toda uma vida em comum. 
Quando voc comeou a me rejeitar na cama, seu papel caiu muito na minha vida. Como eu disse, eu teria mantido o casamento para cumprir minha promessa. Mas no vou 
lutar por um casamento que, na realidade, no quero.
   - No quer continuar casado comigo? - ela perguntou, sem foras, precisando que ele revisse as palavras.
   - Por que a surpresa? Voc sente o mesmo.
   - Eu... sinto? - ela perguntou estupidamente, sem conseguir pensar.
   - E sequer tem a fora de carter para pr isso para fora - ele falou, tratando as palavras dela como confirmao, em vez de dvida. - Engraado, sempre pensei 
que sentia mais por voc que isso, mas no vou fingir um desgosto que no sinto.
   - Mas antes...
   - Deixei que meu orgulho ditasse as palavras. Certamente no estava reagindo de acordo com o que queria.
   Sentindo-se enjoada por conta de um verdadeiro desgosto pesando no estmago, ela se levantou.
   - Ento, acho que no preciso falar mais nada.
   - Nada que eu queira ouvir.
   Ela assentiu rispidamente, surpresa com a fora do corao humano, que conseguia suportar tanta dor sem sucumbir, e sangrando por dentro.
   
   Cludio observou a esposa cambalear at o assento e teve vontade de jogar algo para o alto. Droga, por que ela parecia to perturbada? Ela queria o divrcio. 
Fora ela que conhecera outra pessoa.
   E queria contar isso a ele. Como se os detalhes fossem amenizar a infidelidade dela.
   Provavelmente contaria a ele que se apaixonara, que no conseguira evitar. Ele ja tinha ouvido isso antes de amigos e conhecidos de todo o mundo. Mas raramente 
os votos de amor faziam com que essas pessoas do crculo poltico chegassem ao divrcio.
   Ele entendia que sua madrasta precisou abandonar seu pai, mas nunca compreendeu o fato de ter ido to longe e exigido o divrcio. Ela no se casou novamente... 
e certa vez ele ouviu quando ela comentou com algum que jamais se casaria. Ento, por que arrastar o nome da famlia na lama?
   Por um princpio?
   Ele tinha tanta certeza de que Theresa no faria nada to ousado que nunca contou com a possibilidade de ela conhecer outra pessoa.
   Talvez, de uma forma arrogante, ele tenha suposto que fosse suficiente para os dois, na cama e fora dela. Estava errado. Ento, por que ela agia como se as palavras 
dele a tivessem arrasado?
   Ele as falou para salvar sua pele. Elas saram no impulso, totalmente inesperadas, quando ele percebeu que ela estava prestes a contar que tinha outro homem. 
Ele no estava orgulhoso de mentir. Era um homem honesto e isso o envergonhava, mas no se arrependia.
   Seu orgulho fora dilacerado pelo pedido de divrcio e pela conseqente percepo da confirmao de todos os seus receios pela falta de interesse sexual de Theresa. 
Ela havia conhecido outra pessoa e queria se divorciar dele, do prncipe Cludio Scorsolini, por causa dele.
   No havia outra explicao possvel para as revelaes da noite.
   Saber disso o deixara furioso o bastante para querer matar, mas no era Theresa que queria ferir. Era o homem que levou sua suave esposa a uma paixo que obviamente 
fora alm do que o que eles tinham juntos. Cludio mal podia crer que isso era possvel. A maior mentira que disse a Theresa foi que havia se entediado a seu lado. 
Ele continuava a desejar seu corpo, mesmo com a recente falta de disponibilidade sexual dela. Na realidade, isso chegou a desafi-lo tanto quanto a decepcion-lo. 
Era o predador natural que havia nele, que desejava ca-la quando ela se esquivava.
   Ele ficava doente de raiva ao reconhecer que se esforava para seduzi-la e ela queria outra pessoa. Ainda assim, ele no acreditava que havia falado aquelas 
palavras a ela. No porque no pudesse ser to rude quanto todos os seus ancestrais que colonizaram Isole dei Re, mas porque as palavras no correspondiam  verdade. 
Ele havia ficado surpreso e resolvera adotar essa linha de defesa.
   O casamento deles nunca fora apenas sexo, embora para ele esse aspecto fosse de suma importncia. Para qual homem no era? Mas ela confiava nele. E como o veria? 
Ele no passava de um corpo na cama dela e de uma forma de atender s necessidades de alpinismo social da me dela.
   Mas quem seria o homem? No era um Joo-Ningum, certamente. Um americano. O que justificaria as freqentes viagens dela aos Estados Unidos. No seria difcil 
para o detetive Hawke encontrar um nome. Por alguma razo, a idia de descobrir os detalhes por conta prpria no parecia to dolorosa quanto a de saber por ela. 
Talvez porque se sentisse no controle enquanto estivesse reunindo as informaes.
   Cludio ainda no sabia o que faria com os dados que viesse a obter.
   O desejo de vingana era latente dentro dele.
   Ele arrasaria o outro homem? Faria qualquer coisa para impedir que Theresa fosse feliz ao lado dele? Tudo o que tinha a fazer era recusar o divrcio. No era 
fcil terminar um casamento com um membro da famlia real de Isole dei Re.
   Flavia s conseguiu com o pai dele porque o casamento aconteceu na Itlia e, ainda assim, porque ele no contestou ou negou sua infidelidade.
   Cludio no sabia se agiria da mesma forma. Falou a Theresa que no ficaria preso a uma relao que no queria. Isso era verdade... mas no era verdade que no 
queria o casamento. Ele no sabia se poderia toc-la novamente, sabendo que seu corpo havia pertencido a outro homem, mas tambm no sabia se conseguiria deix-la.
   E reconhecer isso o amargurava, tornando-o ainda mais furioso do que o fato de saber da infidelidade dela.
   
   Eles chegaram a Lo Paradiso de madrugada e foram direto para o hospital.
   Theresa tentou descansar no avio, mas era impossvel dormir com aqueles pensamentos, que oscilavam entre o desejo de Cludio de se divorciar e o rei Vicente 
doente em um hospital. Ela pensava que nada poderia ser pior que saber que tinha endometriose com grande chance de total infertilidade.
   Estava errada. Saber que no tinha alternativa a no ser deixar Cludio havia dodo, mas descobrir que ele queria terminar... que ele estava entediado com ela 
havia arrasado Theresa. Ela no tinha mais dvidas de que no era uma sobrevivente em sua guerra particular. Seu corao estava morto no seu corpo.
   Mas se estava morto, por que ainda doa tanto?
   Quando eles chegaram ao hospital, Cludio segurou o brao dela para impedir que entrasse na limusine.
   - Theresa...
   Ela no olhou para ele. No podia.
   - O qu?
   - Minha famlia est passando por muito estresse agora.
   - Sim - ela tambm estava, mas ele deixou dolorosamente claro que no se importava.
   Ela teve a audcia de pedir o divrcio e isso a tornava persona non grata.
   - No quero estress-los ainda mais com as notcias de nosso iminente rompimento.
   Ele precisava colocar as coisas assim, como se no pudesse esperar para livrar-se dela?
   - Claro.
   - Espero que se comporte como sempre comigo.
   - Certamente no teremos problemas em manter as aparncias - ela olhou para ele. - No  como se tivssemos um casamento como os de seus irmos. Ningum espera 
que sejamos carinhosos.
   Ela puxou a mo com raiva e entrou no carro, com a mscara pblica firmemente no lugar.
   Esperava-se isso dela. Ela faria sua parte para mostrar uma aparncia de solidariedade. Ela levantou a cabea, seu corpo a apenas alguns centmetros do dele, 
mas podia muito bem ter sido um quilmetro.
   Quantas vezes caminhou ao lado dele desejando que ele a envolvesse com o brao ou lhe desse a mo... para mostrar a ela de alguma forma que sentia uma ligao 
entre ambos? Mas ele nunca agiu assim. Ela ficava furiosa consigo mesma, mas desejava aquele apoio fsico ainda mais agora.
   Ela no tinha idia do que encontrariam no hospital e. estava assustada, com o corao em frangalhos.
   Eles caminharam para o prdio e cruzaram um batalho de reprteres.
   Ela escondeu o rosto com as mos, mas seus ps vacilaram e ela teve de se esforar para continuar andando.
   De repente, o corpo forte de Cludio estava ali, protegendo-a dos jornalistas, seu brao forte em torno dos ombros dela.
   Embora sentisse que estava se apoiando no inimigo, ela aproveitou o conforto do escudo humano que ele oferecia e deixou que ele a conduzisse pelos vidos jornalistas. 
Ela no conseguiu deixar de pensar que seria assim ou pior, caso a imprensa soubesse que ela no poderia engravidar sem fertilizao in vitro.
   Que tipo de perguntas acusatrias fariam a ela e Cludio?
   Ela no se importava em pensar nisso. No se quisesse manter a sanidade diante da sade do rei Vicente.
   Quando eles entraram no hospital e a porta se fechou, Cludio a soltou, como se no suportasse ficar perto dela por mais nenhum segundo.
   Eles caminharam em silncio. O prprio diretor veio receb-los e os levou  rea destinada  famlia real. Ele e Cludio conversaram, mas, quando ela notou que 
ele no dizia nada diferente sobre a condio do sogro, deixou os homens a ss.
   Em algum lugar, por trs daquelas silenciosas paredes, seu sogro lutava pela vida. Estvel ou no, seu estado no era seguro, se tinha de passar por uma cirurgia 
para colocao de marca-passo. Ela j ouvira falar de pessoas perfeitamente saudveis que haviam enfartado pela segunda vez durante esse tipo de cirurgia. Ela s 
podia agradecer pela primeira no ter matado o lder do pas.
   
   
   CAPTULO CINCO
   
   Maggie veio correndo at Theresa quando ela e Cludio chegaram  porta que dava para a sala de espera.
   Ela olhou para Theresa e a abraou forte.
   - Vai ficar tudo bem. Ele precisa de um marca-passo, como voc sabe, mas  um homem forte. Vai ficar bem.
   Theresa deixou a cunhada abra-la, agradecida por um contato humano que no era motivado pela necessidade de fazer fachada para a imprensa.
   - No sei o que farei se ele morrer - ela sussurrou.
   Ela no queria falar aquilo e ficou impressionada com as prprias palavras. Estava acostumada a proteger seus sentimentos, mas suas emoes estavam muito  
flor da pele para serem totalmente escondidas.
   - Ele no vai morrer, querida. No fale assim. - Maggie confortou Theresa e ela sentiu lgrimas nos olhos.
   Ela no conseguia se lembrar da ltima vez em que algum reconhecera que ela era dotada de sentimentos. Que a tocara para confort-la. Certamente, Cludio no. 
Ele agia como se seu corao fosse feito de ferro e duas vezes mais duro do que deveria ser.
   Os pais de Theresa nunca a haviam confortado quando ela era criana. Ela devia esconder todos os medos e jamais admitir a dor.
   - Podemos v-lo?
   - Tomasso est com ele agora. Ele est dormindo, mas pode v-lo. Ele est plido, mas est bem. 
   Theresa aquiesceu e foi para o quarto do rei Vicente sem esperar para ver se Cludio a seguira. Ele e sua forte presena ao lado dela foi logo percebe-la. Havia 
uma ligao entre ambos que ela duvidava que o divrcio pudesse cortar... pelo menos da para ela.
   Ela abriu a porta e entrou silenciosamente. Havia uma meia-luz por trs da cama do rei, que estava imvel, dormindo. Sua normalmente cor bronzeada dava lugar 
a uma palidez que ressaltava os crculos pretos sob os seus olhos.
   - Ele parece to fraco - a voz de Cludio estava nada de emoo.
   - Sim, mas vai ficar bem - falou Tomasso.
   E Theresa se pegou rezando: "Por favor, Senhor, permita que ele fique bem." Tomasso se aproximou do irmo e sussurrou: 
   - Eles marcaram a cirurgia para amanh de manh.
   - Marcello e Danette j tero chegado?
   - Sim. E Flavia tambm.
   - Ela vem?
   - Sim.
   - Danette ficar bem num vo to longo? Tomasso deu um meio-sorriso.
   - De acordo com Marcello, ela insiste que est lvida, e no doente. Maggie diz o mesmo.
   - Maggie est certamente doente com a gravidez. Estou surpreso por t-la deixado vir.
   Tomasso suspirou.
   - No havia como impedi-la, mas quero lev-la para o palcio para descansar assim que possvel.
   - Sim - Cludio se aproximou da cama do pai e tocou seu brao. - Que bom que o enjo de Danette no est to forte!
   Theresa foi pega de surpresa diante dessas palavras e sentiu um n na garganta.
   - Ele vai ficar bem. Acredite, Cludio - falou Tomasso, mostrando que tambm no fora enganado pelo comentrio do irmo.
   Cludio no falou nada. Sua ateno estava toda concentrada no pai, imvel na cama.
   Tomasso apertou o ombro do irmo e saiu do quarto.
   Theresa se moveu para ficar ao lado de Cludio e colocou a mo na face do rei Vicente. Estava quente, e isso a confortava. Eles ficaram assim por alguns minutos, 
os dois tocando o rei, sem se tocarem.
   Ento Theresa foi para o outro lado do quarto rezar, com uma f incerta. Tomasso voltou e sussurrou algo no ouvido de Cludio. Cludio assentiu e falou alguma 
coisa, e Tomasso saiu.
   Ele a encarou.
   - Tomasso e Maggie vo voltar para o palcio. Ela quer que ele descanse e no ir sem ele.
   - Que bom que ele vai, ento.
   - Falei que voc iria tambm.
   - Prefiro ficar.
   - Este  meu lugar.
   - Meu tambm.
   - No depois de hoje  noite.
   Ela sentiu como se tivesse apanhado dele.
   - Eu amo o rei Vicente. Voc sabe disso. Quero ficar aqui com voc.
   - Precisa descansar - respondeu Cludio, to duro quanto uma rocha.
   - No vou dormir. No poderia.
   - No seja boba, menina. V para casa e volte pela manh - a voz rouca veio da cama e os joelhos de Theresa bambearam quando ela ouviu.
   Ela cruzou o quarto correndo e pegou a mo dele.
   - Rei Vicente...
   - Quantas vezes... - ele fez uma pausa, respirando ofegante. - Falei para voc me chamar de papai.
   - Eu...
   - Certamente no  pedir demais - Cludio comentou com a voz controlada que ela sabia que escondia raiva.
   Ela nunca se sentiu confortvel em chamar o rei de papai, mas agora ainda mais... seria muito errado. Ela logo sairia totalmente da famlia.
   Sim, como ela poderia negar a ele um pedido to simples? A resposta era: no podia.
   - Desculpe, papai, mas quero ficar com voc.
   - Precisa descansar.
   - Preciso ficar com voc.
   - No discuta, ele est doente.
   - Eu sei, mas tambm sei que s est falando isso para fazer as coisas a seu modo - ela acusou o teimoso marido.
   O rei Vicente riu sem foras, expressando cansao nos olhos azuis.
   - Essa  minha nora.  perfeita para o meu filho.
   As palavras doam, porque, de acordo com Cludio, ela no era nada perfeita, mas Theresa esboou um sorriso.
   - Por favor, deixe-me ficar.
   - Preciso falar sobre alguns assuntos com meu filho. Caso acontea algo. No vou sossegar se no souber que voc no descansou.
   - No fale como se fosse morrer, por favor.
   - Todos temos que enfrentar a morte, cedo ou tarde, filha.
   - Mas quero que seja mais tarde. Tomasso falou que voc ficar bem. Os mdicos falaram.
   O rei deu de ombros.
   - A cirurgia costuma ser bem-sucedida, mas sempre existem riscos em situaes assim. Ser a vontade de Deus.
   - No acredito que seja a sua hora.
   - Eu tambm no, cara, mas eu seria negligente se no conversasse alguns assuntos de ltima hora com meu herdeiro.
   Theresa olhou para Cludio. No sabia por qu. Ele no era mais o seu defensor... se  que um dia foi. Certamente no podia esperar nenhum tipo de conforto daquela 
direo, mas estava acostumada a contar com ele.
   Os olhares deles se cruzaram e os olhos sombrios dele no expressavam nada. Ela piscou e virou a cabea, incapaz de lidar com aquilo, como se tivesse percebido 
que seu casamento podia no ter sido perfeito, mas que sempre tivera intimidade. Agora, reconhecia que ela havia acabado.
   Sempre que os olhares deles se cruzavam antes, ela via o reconhecimento de si mesma e seu lugar na vida e nos olhos dele. No ver nada disso agora fazia com que 
ela percebesse que talvez o casamento deles fosse mais do que ela imaginava, mas, de qualquer forma, havia acabado agora.
   - V para casa e descanse.  o que quero - falou o rei Vicente, conseguindo parecer arrogante e no controle da situao, mesmo debilitado.
   - Eu vou sair - ela falou, sabendo que ele entenderia isso como obedincia. Ela havia convivido muito tempo com polticos para saber como aparentar uma promessa 
sem que ela significasse nada.
   Ela sairia... do quarto do hospital.
   - Bom.
   Ela se inclinou e beijou a face do rei.
   - Fique bem, papai. Por todos ns.
   - Farei o possvel. Ela forou outro sorriso.
   - Tenho certeza disso.
   Ela no conseguiu encarar Cludio novamente.
   - Nos vemos depois - ela falou, saindo do quarto. Ela foi direto para a sala de espera, onde sabia que encontraria os outros, e despachou Tomasso e Maggie.
   Theresa se acomodou na sala de espera. Aninhou-se no sof e assistia  televiso como se ela criasse um rudo branco no pano de fundo dos seus pensamentos infelizes.
   
   Ela acordou ao som de vozes.
   Theresa sentou-se. Um palet que havia sido colocado sobre ela caiu de seus ombros. Ela estava tomada pelo cheiro de Cludio e pelo calor de seu palet, que 
a confortou naquela hora. Ele deve t-la encontrado mais cedo e a cobriu.
   Ele virou para olhar para ela, mesmo sem que Theresa tivesse feito nenhum rudo. Seu rosto era uma mscara impenetrvel.
   - Voc no voltou para o palcio.
   - Eu nunca disse que voltaria.
   - Falou que ia sair.
   - E sa - ela olhou para longe dele, sem conseguir lidar com esse Cludio distante. - Do quarto do hospital.
   - Mas no do hospital.
   - No.
   - Por que no?
   - Queria estar aqui, caso acontecesse algo.
   - Voc viu papai e supus que tinha ido embora com Tomasso.
   Ela deu de ombros, deixando o palet cair mais um pouco.
   - No sou responsvel por suposies de dois homens levados pela crena arrogante de que o resto do mundo vai mudar de planos simplesmente porque eles ditam.
   Flavia gargalhou.
   - Isso, Theresa. No deixe esse meu filho mando achar que manda totalmente em voc.
   - Sem chances, mame.
   Theresa tinha quase certeza de que fora a nica a ouvir o tom rouco de Cludio, mas, para os seus ouvidos, fora to alto que era como se ele tivesse gritado 
o quanto no gostava dela.
   - Fico contente em ouvir isso. Voc parece muito com seu pai, achando que controla o mundo e todas as pessoas. A vida no funciona assim e, certamente, pela primeira 
vez na vida, talvez Vicente esteja percebendo isso.
   - Ele est mais do que ciente disso. Posso assegurar - falou Cludio, com a voz firme.
   - E voc, meu filho?
   - Fique contente em saber que ele e eu estamos conscientes de que nossos desejos no mudam o mundo.
   O rosto de Flavia demonstrou suave preocupao.
   - Sinto muito, Cludio. Momentos assim so difceis, mas Vicente ficar bem. Acredite.
   - Espero que esteja certa.
   - Sempre estou certa, mas s vezes os homens da famlia levam algum tempo para entender.
   Theresa s no gargalhou porque sabia que Flavia estava errada em um aspecto.
   Assim como o rei Vicente, ela sempre acreditou que Theresa e Cludio formavam um par perfeito, e sempre verbalizava isso. Quando a sade do pai melhorasse, Cludio 
se asseguraria de que todos soubessem o quanto seus pais estavam equivocados.
   Flavia falou:
   - Gostaria de ver Vicente.
   - Sim, claro - respondeu Cludio. - Est dormindo agora, mas pode acordar novamente.
   Marcello assentiu.
   - Ficarei tambm.
   - Nesse caso, devo levar nossas mulheres para o palcio. Parece que essa ser a nica forma de eu garantir que Theresa descanse.
   - Para que horas est programada a cirurgia? - perguntou Theresa, ignorando a ironia e conseguindo evitar o olhar dele enquanto aparentava olhar em sua direo.
   - Daqui a cinco horas.
   - Quero estar aqui.
   - Ento vamos para o palcio comigo agora e tire pelo menos um cochilo antes.
   - No precisa me dizer o que fazer.
   - Prefiro ficar com Marcello e Flavia - respondeu Danette antes de Cludio responder.
   Marcello colocou gentilmente o brao em torno da cintura dela e a puxou para perto, beijando sua testa.
   - Est grvida, cara mia, precisa descansar pelo seu bem e pelo bem do beb. Por favor, volte para o palcio com meu irmo.
   Theresa refletiu se Cludio seria alguma vez carinhoso com ela... mesmo se estivesse grvida. Uma discreta voz dentro de seu corao dizia que no faria diferena. 
Ela teria seus sonhos com ou sem a ternura extra. Ver seu desejo mais profundo realizado no corpo de outra mulher provocou uma dor que no tinha nada a ver com 
inveja.
   Theresa adorava Danette e queria o melhor para ela, mas no podia mais sufocar o desejo urgente de ter um beb, assim como no podia fingir que Cludio a amava.
   Theresa no conseguiu deixar de evitar a comparao entre as formas de interao de Danette e Marcello e ela e Cludio. Ela nunca ousaria beij-lo num lugar 
pblico como um corredor de hospital. Nunca sequer o havia beijado na frente dos familiares, nos apartamentos privativos do palcio.
   Olhando para trs, ela percebia que, durante trs anos, podia contar nos dedos quantas vezes o beijara quando no estavam fazendo amor. Ela nunca sentiu a confiana 
de instigar uma transa, mas sempre respondia... com mais paixo do que julgava possvel.
   Ele se orgulhava dela por isso, mas agora ela pensava que talvez tenha sido muito entusiasmada. Ele ficou entediado com ela... por que fora fcil demais?
   E, mesmo antes de ele ter confessado seu tdio, ela sabia que ele no sentia tanto carinho por ela quanto seus irmos por suas esposas.
   Ela olhou para Marcello e Danette, to prximos que certamente eram a metade um do outro, e seu corao se encheu de dor, pois sabia que no deixaria de amar 
Cludio, mesmo agora, que o detestava quase tanto quanto o amava.
   Seu futuro se mostrava como uma terra perdida e solitria  sua frente.
   O que havia de errado por no inspirar amor nas pessoas que deveriam ter afeio por ela? Seus pais s a viam como um meio para um fim ou um doloroso desapontamento, 
e Cludio dera a ela apenas um papel remotamente mais importante na sua vida. O de amante e ajudante, mas estava feliz demais para jogar isso fora.
   Ela se levantou, precisando sair dali, e o palet caiu. Ela se abaixou para peg-lo e o estendeu na direo de Cludio.
   - Toma.
   Ele pegou, com os dedos roando os dela e ela puxou a mo, batendo no sof, quando retraiu tambm o corpo em reflexo.
   - Theresa, est bem, filha? - Flavia perguntou, preocupada.
   - Sim. A-apenas cansada. - Theresa estava sufocada com lgrimas que queimavam seus olhos, mas apenas parte delas eram pelo homem acamado no hospital. - Vou esperar 
no carro.
   E, ignorando a etiqueta pela primeira vez na vida adulta, ela saiu do corredor sem se despedir de ningum.
   
   Theresa estava como um fantasma quieto, sentada ao lado de Danette no carro. Felizmente, a famlia j tinha decidido que ela estava muito preocupada com a doena 
do pai dele, e ele no achava que o comportamento dela fosse gerar suspeitas na cunhada.
   Ela se recusara a fitar Cludio nas ltimas horas. Ele no sabia o que ela havia sentido quando seus olhares se cruzaram no quarto do hospital. Ele tinha certeza 
de que havia conseguido controlar a raiva que sentia dela, pois no queria chatear o pai. Porm, algo que ela viu nos olhos dele a chateou a ponto de ela desviar 
o olhar com uma expresso no rosto que fez com que ele tivesse vontade de agarr-la e abra-la, mesmo que esse desejo fizesse dele um idiota.
   Depois disso, ela no olhou mais para ele...
   Se a perspectiva do divrcio era to ruim, por que ela o desejava? Ou seria a realidade de sua traio vindo  tona?
   Ela era adorada pelos pais dele, e ele sabia que ficariam profundamente magoados se houvesse um divrcio. Especialmente se eles descobrissem que Theresa havia 
trado os votos do casamento. Ela adorava o pai e a me dele e no desejaria mago-los com suas aes.
   Ser que ela finalmente estava comeando a perceber quais seriam os resultados de suas aes?
   Que pena no ter considerado isso antes de se envolver com outro homem. S de pensar nela com outra pessoa, ele ficava furioso, e tinha de esconder perguntas 
raivosas na frente de Danette. Ser que Theresa estava arrependida agora? Estaria avaliando o custo, agora que era tarde demais, desejando no ter pedido o divrcio? 
Ou ele estaria apenas envolvido em um pensamento esperanoso?
   Talvez fosse uma simples preocupao por seu pai, mas Cludio nunca a vira perdendo o controle como ocorrera no hospital. E ainda havia o fato de ela no olhar 
para ele.
   O palet dele tinha o cheiro dela... um cheiro suave e floral que tinha o poder de deix-lo doente de desejo.
   Seus msculos estavam rgidos por causa do desejo de peg-la em seus braos. No que ele o fizesse nessas circunstncias, mesmo se ela no tivesse pedido o 
divrcio e confirmasse suas piores suspeitas. Ele no demonstrava afeio publicamente. Sua dignidade como futuro soberano do trono Scorsolini exigia que fosse 
circunspecto ao lidar com a esposa.
   Mas ver seu irmo mais novo beijar a mulher sem se importar com quem os estivesse observando despertou em Cludio uma estranha pontada na regio do corao.
   E ele tinha quase certeza de que Theresa tambm ficara abalada. Se ele no julgasse impossvel, diante dos acontecimentos daquela noite, acreditaria que ela se 
ressentia por ele no agir da mesma forma com ela. Ele percebeu que, nos ltimos meses, ela vinha olhando estranhamente para os seus cunhados e as esposas, e refletia 
sobre isso.
   Ser que ela buscara afeio com um homem mais expansivo? A idia esfolava seu ego e seu senso de confiana masculina. No ser tudo que aquela mulher queria era 
uma perspectiva difcil para qualquer homem. Mas como um homem que tinha de esconder a relao com ela poderia fazer demonstraes pblicas de carinho?
   E a relao era muito bem escondida. At ela pedir o divrcio, Cludio sempre esteve quase certo de que suas suspeitas no passavam de tolices de um crebro masculino. 
Porque ele nunca havia visto nenhuma impropriedade no comportamento da esposa.
   Ele passou o tempo no avio pensando no passado, tentando analisar quando a havia perdido, mas, quando comeou a pensar muito, forou seu crebro hiperativo 
a parar de dissecar as memrias.
   Isso no estava lhe fazendo bem e ele estava enlouquecendo. Cludio deixaria Hawke fazer seu trabalho e enfrentaria a verdade de cabea erguida. Como um homem.
   Da mesma forma que enfrentava a possibilidade de perder o pai... sem lamentos, sem se recusar a aceitar o que tal fato traria para a sua vida. Desde criana, 
fora ensinado a enfrentar a vida com a perspectiva de um direito de nascena. A dele trazia mais responsabilidades, e elas permeavam todos os aspectos, inclusive 
seu casamento.
   Sempre soube que um dia reinaria em Isole dei Re. Aceitou esse dever e tudo que envolvia todas as etapas da jornada de sua vida. Nunca se rebelou contra o que 
seu direito de nascena pregava. Ele no precisava fazer promessas ao pai de que cumpriria com seus deveres se o impensvel acontecesse e ele no resistisse  
cirurgia.
   Os dois homens eram totalmente confiantes na adequabilidade de Cludio  funo. Ele nascera e crescera para isso, sabendo o que significava. Era um prncipe 
coroado, destinado a ser o rei. Mas eles conversaram e seu pai falou a Theresa que eles deviam falar... sobre aspectos polticos, circunstncias familiares e problemas 
pessoais.
   Seu pai demonstrou uma forma de pensar que impressionou Cludio, mas nada mais impressionante que o fato de ainda estar apaixonado por Flavia.
   Toda aquela loucura da maldio dos Scorsolini que seu pai contou resumia-se a isso. Todas as amantes depois do divrcio do rei Vicente tinham sido uma tentativa 
do pai de esquecer o amor de uma mulher viva. E no de uma morta.
   Intensos sentimentos de culpa misturados a um luto que ele nunca se permitiria retirar em pblico caram sobre Vicente nos primeiros anos do casamento. Ele achava 
impossvel pronunciar as palavras de amor necessrias para Flavia, pois no conseguia admitir esse amor nem mesmo para si mesmo.
   Mas os sentimentos cresceram dentro dele at ficar desesperado para encontrar uma forma de neg-los. Finalmente, em estado de total pesar pelo que perdera e 
pela forma como estava seu atual casamento, ele traiu sua promessa de fidelidade. Flavia descobriu e, embora tenha aceitado um casamento de amor unilateral, recusou-se 
a tolerar infidelidade.
   Sem se comprometer, o rei Vicente no fez nada para evitar. Ele criou a fico da maldio dos Scorsolini para abrandar sua dolorosa conscincia e seu dilacerado 
orgulho logo depois do divrcio.
   Ele chegou a acreditar nisso at a realidade do casamento de Tomasso. Eles estavam caminhando pela praia com as crianas. Vicente olhou longamente para a mulher 
que dera  luz seu terceiro filho enquanto ela conversava com os netos.
   Por alguma razo que ele ainda no entendia - mas confessou a Cludio que pensou que podia ser uma premonio do que estava por vir -, tudo se encaixava depois 
de mais de duas dcadas de idiotice, como ele denominou.
   Cludio no sabia o que fazer com as revelaes do pai, ou entender por que o pai havia feito aquele desabafo. Mas sabia que o pai finalmente havia aceitado 
seu amor por Flavia e estava preparado para lutar por esse amor. Se Cludio conhecia o pai como achava, os dias de solteira de sua madrasta estavam contados.
   Desde que o rei Vicente sobrevivesse  cirurgia.
   
   
   CAPTULO SEIS
   
   Quando eles chegaram ao palcio, Theresa conseguiu sair do carro e caminhar ao lado de Cludio at o apartamento sem uma segunda troca de olhares e sem permitir 
que sua mo roasse a dele. Isso o incomodava. No gostava de ser ignorado pela esposa e ela ainda era esposa dele, independentemente do fato de querer fingir outra 
coisa.
   Ele seguiu seu esguio corpo para dentro do apartamento com uma forte sensao de ter sido usado.
   Entretanto, ela parecia to perdida - e isso o enfurecia tanto - que ele se importou.
   - Devia ter vindo com Tomasso e Maggie.
   - Eu no queria - ela falou com aquela voz suave que provocava sua libido.
   Mas teria sido infiel? Estaria apenas pensando nisso? Seria o pedido de divrcio uma preparao para entrar em outra relao? As perguntas o cegavam diante da 
possibilidade de ter perdido apenas o corao dela, mas o corpo ainda no.
   - Eu notei - ele resmungou, decepcionado com ela em vrios nveis.
   - Queria ficar l, caso acontecesse alguma coisa - ela retrucou com um suspiro, enquanto retirava os sapatos e caminhava descala na sala de estar.
   Quanto mais ela evitava o olhar dele, mais ele se irritava. O fato de ter de segui-la como um co adestrado tambm no amenizava as coisas.
   - No teria feito diferena.
   - No foi o que voc falou em Nova York.
   - Estava com raiva.
   - E descontando em mim. Eu percebi.
   E em quem ela pensava que ele despejaria sua raiva, depois do pedido de divrcio? Em vez de fazer uma pergunta cuja resposta no queria ouvir, ele falou:
   - No gosto da idia de ver voc dormindo no sof de uma sala de espera. Voc estava to desligada que nem percebeu quando cheguei na sala.
   Entretanto, ela se aninhou no palet dele, sussurrando seu nome e ele sentiu como se algum tivesse chutado seu estmago. Como ainda podia buscar o conforto 
dele quando na noite anterior queria outra coisa?
   - A segurana estava a postos o tempo todo. 
   Ele j tinha tirado a gravata e se livrou do palet que trazia o cheiro dela. Como seus corpos, depois que faziam amor. Ele no gostava de lembrar disso. Por 
razes que no conseguia entender, ele a desejava mais que nunca.
   Podia estar enojado s de pensar em toc-la. Mas, longe disso, ainda considerando a possibilidade de ela estar sozinha no sentido fsico, a necessidade de carimbar 
a possesso no corpo dela novamente atiava todos os seus sentidos.
   - No  esse o caso.
   - No h caso... no h por que discutir isso agora - ela se encaminhou ao banheiro, claramente demonstrando que ia se trocar l, quando h alguns dias teria 
se despido na frente dele com naturalidade. - O que est feito est feito.
   Ele supunha que era assim que ela considerava o fim do relacionamento deles, mas ele no aceitava.
   - Concordamos em demonstrar unio por enquanto.
   - Demonstrar unio no significa que vou aceitar ordens como se fosse um cachorro.
   - Olhe para mim, droga! - ele explodiu, sentindo necessidade de conversar.
   Ela virou rispidamente para fit-lo, de cabea erguida e com os lindos olhos verdes em posio de desafio.
   Ele retribuiu o olhar, totalmente impaciente.
   - Nunca a tratei dessa maneira!
   - No vamos abordar o assunto de como voc me trata - ela falou, com sarcasmo. - No importa mais.
   - Est dizendo que quer o divrcio porque est infeliz com a forma como a trato no casamento? - Ele nunca havia pensado nisso. A fraca sensao de esperana que 
o percorria o deixava irritado, mas, ao mesmo tempo, animado.
   Mas uma mulher no reclamaria das coisas que a incomodam antes de fazer algo drstico como pedir um divrcio? Especialmente uma mulher consciente como Theresa?
   - No pedi divrcio por causa da forma como me trata. Se voc se lembrar, sequer pedi divrcio.
   - No venha discutir semntica comigo - ele resmungou. - Voc falou que temos que nos divorciar.
   - E temos.
   - Mas no por causa da forma como a trato?
   - No.
   Somente uma circunstncia poderia levar uma mulher leal e responsvel como Theresa a ignorar suas convices e pedir o divrcio. Ela tinha de estar apaixonada 
por outro homem. O amor transformava as pessoas mais inteligentes e fortes em verdadeiros idiotas.
   A idia de Theresa amar outro homem dessa forma provocou um sentimento de cime to forte que quase o possua. Ele forou-se a acalmar-se, sem desejar se entregar 
a essa fraqueza.
   - Eu adoraria que fizesse um teste formal de gravidez.
   - No ser necessrio.
   - Ficar menstruada no  garantia de que no esteja grvida.
   - E se eu estiver grvida... ficaria chateado comigo? Ainda ficaria to contente em se divorciar? - perguntou, com um sarcasmo que no era caracterstico dela.
   O orgulho o impedia de dar a resposta correta, ento ele ficou calado. Ela suspirou.
   - Foi o que pensei. Tenho certeza de que no estou grvida. Vamos deixar as coisas assim.
   - Voc tem feito alguma coisa para impedir a gravidez? - ele perguntou, em tom de suspeita.
   At onde iriam as desculpas dela?
   - No.
   - Ento h risco. Voc vai fazer um exame.
   Ela deu de ombros cansada, antes de falar:
   - Se  o que quer, eu fao.
   - O que quero no tem nada a ver com essa conversa.
   - Bem, certamente ela no trata do que eu quero.
   A expresso de Cludio demonstrava que ele pensava que a conversa era exatamente sobre isso. Ele agarrou os ombros de Theresa sem machuc-la fisicamente, mas 
causando uma angstia mental nela que ele no entenderia.
   - Se voc estiver grvida, no haver divrcio. 
   Era exatamente o que ela havia imaginado. Ela no entendia como conseguia sentir mais dor ainda, mas sentia. Ele deixou bem claro, sem permitir espao para outras 
interpretaes. Ela era importante para ele por sua capacidade de ser uma potencial incubadora para o herdeiro Scorsolini. Pelo seu filho, ele ficaria casado com 
a mulher que o entediava.
   - Como quiser - ela estava to cansada e desanimada que no tinha energia nem vontade de discutir.
   Alm disso, no importava. Sabia que no estava grvida. Fazer o exame no mudaria nada.
   O corpo forte dele vibrava com uma tenso que ela no entendia.
   - Voc deve estar muito certa de que essa possibilidade no existe, pois a perspectiva de perder sua possvel liberdade no parece chate-la.
   Alm de se importar com o que revelava, ela suspirou.
   - Talvez porque no esteja to preocupada com isso.
   - Embora tenha acabado de me falar que no est tomando nada para evitar.
   - No estou.
   - Se isso  verdade, como pode estar certa?
   - No minto e estou certa.
   - A nica evidncia seria sua menstruao.
   - No estou menstruada.
   - Mas falou...
   - Que tenho certeza de que no estou grvida - ela interrompeu, querendo acabar com a conversa para que pudesse tomar um banho. - Conheo meu corpo e a menstruao 
est vindo. Todos os sinais esto a. - Incluindo a dor da endometriose. Felizmente, at ento, sentia apenas as pontadas da outra noite.
   - Como eu falei, sua menstruao no  garantia.
   - Eu disse que vou fazer o exame. No entendo por que estamos discutindo isso. Podemos acabar com essa conversa agora? Quero me trocar e ir dormir.
   - Sim, concordou em fazer o exame, mas tambm me falou que queria muito um beb meu. No sei em que acreditar. No entendo.
   E no sossegaria enquanto no entendesse. Lgrimas que teriam sido impossveis, pelo tanto que j havia chorado, arderam nos olhos dela.
   - Eu queria ter um filho seu.
   Ainda queria, o que fazia dela uma total estpida e uma total perdedora.
   - Queria... no passado.
   - O que espera? Nenhuma mulher quer saber que est grvida de um homem que est entediado dela e do casamento.
   Pelo menos ela no quereria, mas a idia de ele impedir que partisse se estivesse grvida era tentadora, fazendo com que desejasse o impossvel e se irritasse 
consigo mesma por isso. Entediado ou no, nunca deixaria a me de seus filhos ir embora.
   - No sei mais o que esperar de voc, Theresa. No a entendo - ele repetiu, com um tom de desnorteamento. - Pensei que a conhecesse bem, mas descobri que estava 
muito errado.
   - Que diferena isso faz? Est entediado com o que conhece. Foi o que falou - ela virou e foi para o banheiro, fechando a porta nas suas costas, sem desejar 
que ele visse o quanto aquelas palavras a haviam magoado.
   Ela tirou a roupa e entrou no box. No porque queria outro banho, depois do longo que havia tomado no hotel, mas porque era o nico local em que podia extravazar 
suas emoes com segurana.
   Agradveis cascatas de gua quente molhavam seu corpo quando ela sentiu outra presena no local.
   Ela virou, sua mente dizendo aos instintos que eles deviam estar enganados, mas no estavam. Cludio estava ali.
   Ele estava maravilhosamente nu e a gua caa em redemoinhos no seu peito bronzeado.
   - Decidi no esperar para tomar banho.
   - Saia - ela sussurrou.
   - Por que deveria? J fizemos isso juntos vrias vezes.
   - Mas tudo mudou.
   - Ainda  minha mulher - e ela no entendia essa mensagem.
   - Apenas temporariamente - ela falou para punir mais a si mesma do que a ele.
   - Foi o que voc falou.
   - E voc concordou. Disse que queria isso... o divrcio - ela falou, incapaz de esconder a dor dessa verdade.
   - Talvez eu tenha falado precipitadamente. No estou entediado com nenhum aspecto do nosso relacionamento, cara. Ainda no.
   Aquilo era para que ela se sentisse melhor? No conseguia, assim como o olhar de desejo dele.
   - Quer sexo? - ela perguntou, chocada ao perceber.
   - Por que a surpresa?  algo em que somos muito bom juntos.
   - Mas voc falou... - Ele dissera que o valor dela como parceira havia diminudo quando ela comeou a rejeit-lo, no que no a quisesse mais.
   - Eu disse?
   - Coisas que me magoaram.
   - E o seu pedido de divrcio no me magoou? - ele perguntou.
   Magoou? Provavelmente. Mas, ento, por que queria sexo agora? Nada mais fazia sentido.
   - No entendo - ela falou. Ele apertou os olhos escuros.
   - Bem-vinda ao clube.
   - No pode me desejar.
   -  a que voc se engana, Theresa. Muito. - Ele se abaixou e beijou-a com seduo, moldando os lbios aos dela, deslizando as grandes mos pela cintura dela 
para aproxim-la de sua nudez masculina.
   Ela estava to impressionada com esse rumo nos acontecimentos que no fez nada, nem brigou, nem concordou.
   Ele levantou a cabea, com a paixo revelada pelos olhos mais quente do que a gua que os banhava.
   - Qual  o problema? Voc respondeu rapidamente na noite passada.
   Como podia perguntar tamanha idiotice?
   - Isso foi antes...
   - Antes de me dizer que queria o divrcio?
   - Sim. No acho...
   Ele cobriu a boca de Theresa com a mo molhada.
   - No quero que pense. Porque seno terei que pensar tambm, e no quero. No quero pensar em nada.
   E ela entendia... ou pensou que entendia. Se no estivesse to cansada, provavelmente teria previsto aquilo. Cludio precisava de conforto. Seu pai agonizava 
no hospital diante do futuro incerto e seu marido forte jamais admitira sentir medo. Ou nenhum outro sentimento.
   A pergunta era o que faria em relao a isso.
   Mas, mesmo fazendo essa pergunta, percebeu algo. Precisava de conforto tambm.
   Ele no a amava e isso doa. A sade do rei Vicente estava em perigo e isso doa tambm. Mesmo se sobrevivesse  cirurgia, e as chances eram grandes... ela o 
perderia, juntamente com os demais Scorsolini, quando o casamento terminasse. Esse reconhecimento acrescentava mais dor ainda.
   Seu corao padecia ainda mais quando ela reconhecia que as cunhadas floresceriam em suas funes novas, teriam seus filhos e mais crianas depois. Tudo sem 
ela por perto para experimentar, ainda que de forma substitutiva, o amor familiar.
   Flavia e Vicente finalmente ficariam juntos... era bvio para qualquer pessoa que estavam apaixonados, como sempre estiveram. Mas ela no estaria por perto para 
regozijar-se com eles. Novamente, estaria observando de fora.
   Tentaria preencher sua vida com esforos menos significativos, mas os ventos frios da solido j sopravam na sua alma. Porque o mais devastador de tudo seria 
ver Cludio casando novamente e tendo seus filhos, que no seriam dela.
   A dor era to intensa que se tornou fsica, estremecendo seu corpo, enquanto Cludio olhava nos seus olhos, com uma expresso indecifrvel, exceto pela necessidade 
fsica que ardia no seu olhar.
   - Eu quero voc, cara. Se for honesta consigo mesma... vai admitir que me quer tambm.
   Ela olhou para baixo, seguindo os olhos dele. Seus seios estavam corados por desejo, os bicos rgidos e avermelhados. Eles ansiavam sob o olhar apaixonado dele, 
a pele latejava com o sangue que pulsava sob ela e os bicos dos seios gritavam uma necessidade de alvio gerado pelo toque dele.
   Milhes de lembranas sobre como era ter as mos e a boca dele em suas zonas ergenas a atormentavam. E o que ele no podia ver, mas ela podia sentir era a forma 
como sua parte mais ntima tinha inchado e tambm pulsava com a necessidade de ser preenchida por ele, ligada a ele.
   Sua dor emocional e sua necessidade fsica eram geradas pelo profundo amor que sentia por ele. No importava o fato de ele no retribuir esse amor. Era uma parte 
muito forte do seu ser para ignorar e cada emoo causada por esse sentimento brigava por supremacia.
   Uma promessa de solido vazia que as lgrimas nunca aliviariam.
   - Sim, eu o quero - ela falou com certo desespero.
   Ele no esperou mais, e desceu at a boca de Theresa com a velocidade e o poder de uma fora armada, enquanto gemia pelo contato completo com ela. Seus lbios 
devoraram os dela, seu corpo masculino imprimia uma mensagem de necessidade sexual no dela.
   Era uma necessidade que encontrou vida resposta nela e Theresa no ficou passiva, mas o tocou como se fosse a ltima vez. Ela se deleitou com o contraste que 
seus dedos encontraram entre a pele bronzeada dele e plos encaracolados que marcavam seu corpo masculino, to diferente do dela. Um corpo de homem, o eptome da 
perfeio masculina, para os sentimentos dela.
   Ela percorreu os traos marcados pela rigidez muscular de Cludio, lembrando novamente como era seu corpo. Ela no sabia como viveria o resto de sua vida sem 
isso. Era to especial... to perfeito que ela sempre chorava em razo da pura beleza das sensaes que ele gerava nela.
   Lgrimas brotaram em seus olhos e ela piscou para livrar-se delas, enquanto a gua quente escondia qualquer vestgio de suas perturbaes. A mo dela rondava 
a excitao dele, suas unhas mexiam com o ninho de plos negros de onde vinha seu membro. O corpo forte dele tremia e sons de necessidade troavam em seu peito.
   Era incrvel como ela adorava aqueles sons. Estava viciada neles e passou horas na cama com ele, ouvindo, observando, prestando muita ateno s reaes dele 
para que pudesse ter mais... e mais... e mais.
   As mos dele tambm estavam ocupadas, moldando os seios dela e acariciando reas sensveis que ele conhecia to bem. Era como se ele soubesse que aquele momento 
era especial, uma oportunidade nica que poderia no ocorrer novamente, porque ele a tocava com tanto cuidado, que a excitava a ponto de ferver. E ela emitia os 
prprios sons de desejo, gemidos e sussurros que se misturavam  batida da gua.
   Ela perdia o controle a cada momento, at que se tornou uma massa viva, ofegante e palpitante de necessidade sexual feminina. Ela gemeu contra os lbios dele 
por causa de seu toque, pedindo mais com o movimento do corpo e acariciando com avidez o corpo dele, com todo o fogo que a queimava por dentro.
   O som dos gemidos sexuais de Theresa enlouquecia Cludio, enquanto ela se tornava selvagem para ele. Sempre fora incrivelmente responsiva... quando deixava que 
ele a tocasse, mas agora havia uma qualidade nova na sua resposta. O corpo dela tremia e sacudia, e suas mos passeavam por todo o corpo dele, to quentes sobre 
a sua pele que ele sentia chamuscar.
   Ela o tocava com um desespero furioso. Como se nunca o tivesse tocado... ou no fosse toc-lo nunca mais.
   Mas ele ignorou o ltimo pensamento diante do quanto ela o queria. Esse tipo de desejo no era obtido em uma tentativa de se fazer amor... ou em cem. Ele devia 
saber. Ele a desejava da mesma forma.
   Sempre a desejaria.
   E sua esposa tmida e respeitvel estava praticamente subindo no corpo dele em uma tentativa de unir seus corpos. Estava totalmente fora de controle e ele se 
recusava a acreditar que ela podia dar uma frao sequer daquela reao a outro homem. Ela podia pensar que queria outra pessoa por razes que ele ainda precisava 
descobrir, mas era ele que podia tocar o centro da sua alma com uma simples mo em seu seio.
   Foi assim desde a primeira vez em que ele a tocou com a inteno de seduzi-la.
   A ligao sexual dos dois era muito forte para ser quebrada, muito primitiva para ser explicada ou at compreendida em um nvel intelectual. Talvez ela tivesse 
se controlado mais nos ltimos meses do que no comeo, mas quando permitia que ele se aproximasse... era despedaada. Talvez no de forma to espetacular quanto 
agora, mas definitivamente de maneira muito forte para ele acreditar que ela pudesse desejar outro homem.
   Ela no podia reagir da mesma forma com outra pessoa e ainda responder de um modo to primoroso a ele... no sua esposa, uma mulher que passou a vida escondendo 
as reaes emocionais. Isso ia de encontro a tudo que ele conhecia dela.
   A menos que ela pensasse no outro homem enquanto Cludio a tocava... a menos que ela o estivesse usando para aliviar uma necessidade que no poderia abrandar 
de outra forma.
   Ele no sabia de onde esse pensamento tinha vindo, mas detonou o poder de uma bomba nuclear em sua cabea. No, droga. Ele no acreditaria nisso. Porm, fazia 
sentido para uma mulher que pediu divrcio e logo depois fez amor como se fosse morrer se no tivesse o toque dele.
   Ele interrompeu o beijo e a levantou para uma posio em que sua ereo pudesse ter acesso  entrada de seu corpo escorregadio. Tinha de possu-la... nem mesmo 
os pensamentos perturbadores podiam amenizar suas necessidades, mas ele no podia permitir que ela o usasse assim. No deixaria que essa situao fosse verdadeira 
para eles.
   - Diga meu nome... pea para que eu a penetre. Ela abriu os olhos, mostrando-se confusa.
   - O... qu?
   - Quem sou eu? - ele perguntou com a voz rouca.
   - Amore mio.
   As palavras o atingiram como uma bigorna... era assim que ela chamava o outro homem ou estava dizendo que Cludio era seu amor? Ele podia contar nos dedos das 
mos as vezes em que ela se referira a ele daquela forma, e nenhuma delas nos ltimos seis meses.
   - Meu nome, diga.
   Ela curvou os lbios suavemente, sua expresso era uma mistura que ele no podia decifrar. Parecia que exultao e tristeza eram expressas por seus olhos verdes, 
mas isso no fazia sentido para ele.
   - Cludio... meu prncipe.
   Ento, ela se inclinou para frente para reconectar os lbios deles e o beijou com uma desesperada paixo, devorando sua boca, antes de mordiscar seu queixo e 
passar para a orelha.
   - Faa amor comigo, Cludio. Por favor. Seja meu... nem que seja por pouco tempo.
   A voz dela tinha um som estranho, como se no fosse meramente sexo que pedia, mas ele no entendia o que mais ela queria. Ele podia dar-lhe sexo. Na realidade, 
estava louco para faz-lo. Ele nivelou o corpo dela ao seu pnis e a penetrou com urgente fora.
   Ela gemeu, sua cabea caindo sobre os ombros, sua expresso de contentamento agonizante.
   - Voc se encaixa to bem em mim, amante.
   - Voc parece... perfeito... dentro de mim... - ela sussurrou enquanto ele se movia para frente e para trs.
   Theresa pensou que poderia morrer de paixo. Se morresse, seria a forma de ir... muito melhor que a dor gerada pela endometriose todos os meses.
   A sensao de t-lo dentro dela era incrvel. Ela e Cludio haviam feito amor vrias vezes, de vrias formas, mas nunca nada to primitivo e bsico como daquela 
vez. No havia cama para ampar-los. Ele sequer usava a parede para apoi-la, como fizera nas outras vezes em que haviam transado no chuveiro, apenas a pura fora 
animal.
   Era como se estivessem em um mundo totalmente  parte de qualquer coisa normal, de qualquer coisa que tivessem vivido antes. Eles ficaram cercados de vapor, como 
uma neblina aquecida, enquanto a gua caa por seus corpos, unidos por uma extasiante intimidade.
   Ela gemeu quando ele penetrou mais e atingiu aquela zona especial de prazer dentro dela.
   - Est bem, mi moglie. Derreta-se para mim. Mostre-me o lado que ningum mais v. - A boca dele estava sobre o pescoo dela, sugando, lambendo, mordiscando e 
provocando arrepios de sensaes para as reas mais sensveis do seu corpo.
   Ela travou os tornozelos por trs dele e montou nele... ele estremeceu dentro dela... ela apertou a ereo dele dentro do seu corpo... ele guiava o corpo dela 
com um forte aperto em seus quadris e bumbum.
   Ela abriu os olhos para olhar para ele e viu que a cabea dele estava jogada para trs como a dela, seu rosto tomado por um intenso prazer sexual. Ela se inclinou 
para frente e bateu no peito dele em um gesto to primitivo que mesmo no seu estado avanado de paixo... a chocou.
   Ele, no entanto, no ficou chocado; limitou-se a gemer e aumentar o ritmo, penetrando nela com toda fora. Era to intenso que ela sentia como se estivesse prestes 
a cair em milhes de pedaos.
   Ela sentiu uma forte tenso percorrendo seu corpo, uma sensao de pular de uma experincia para a outra, viajando em um precipcio e ento flutuando, quando 
seu corpo estremeceu ao redor dele e ela gritou seu nome. Ela estava caindo muito rapidamente e gritou de pavor.
   Ele a apertou mais forte e ela passou os braos com mais fora em torno de seu pescoo, a nica sensao de realidade em um universo que explodia de prazer. 
Ele ficou em silncio quando gozou, seus dentes  mostra em um sorriso feroz que falava de forma mais eloqente que qualquer palavra como ele se sentia.
   
   
   CAPITULO SETE
   
   Depois, ele a abraou, acalmando-a com palavras carinhosas e carcias ternas at que ela parasse de soluar, embora nem tivesse percebido que estava chorando. 
O corpo dela relaxou lentamente, at que ela vacilou nos braos dele, enfraquecida.
   Ele a abraou por um longo e silencioso momento, enquanto as pernas dela bambeavam e a ligao entre seus corpos permanecia, lembrando-a que uma vez raramente 
era suficiente para aquele homem... mesmo quando a transa culminava em um prazer explosivo que a deixava totalmente exausta.
   Finalmente, ele a levantou e comeou a lav-la com mos gentis que tocavam cada centmetro dela como se ele quisesse assegurar sua possesso.
   Ela tentou retribuir o favor, mas suas mos estavam desajeitadas, seus movimentos canhestros por um tipo de cansao que somente ele podia provocar. Ele desligou 
o chuveiro e saiu do box, com os braos ainda em torno dela.
   Ela tentou se afastar para que pudesse se secar, mas ele tambm a ajudou. Ento, ele a puxou para perto de seu corpo e caminhou para o quarto.
   Eles foram para a cama juntos, e ela, sem perceber, se aninhou nos braos dele, fechando os olhos e adormecendo imediatamente.
   
   Ela acordou algumas horas depois com um beijo na testa.
   - Acorde, cara. Precisamos nos apressar ou no chegaremos no hospital antes da cirurgia.
   Ela sentou-se, sentindo-se meio mal-humorada. Apesar do prazer da transa, seus sonhos haviam sido perturbadores, e ela no dormira bem. Ela sentia dor no abdome 
e desejou poder dormir mais. Porque, descansando ou no, pelo menos ela podia fugir da realidade em que vivia.
   Ela logo ficaria menstruada, embora agora no estivesse to regular, j que no usava mais plulas. Mas ela sabia que a dor s pioraria a cada dia, at ficar 
insuportvel, quando seu corpo comeasse a sangrar.
   Cludio j estava quase pronto e olhou por cima dos ombros.
   - Mexa-se, Theresa.
   Ela assentiu, estremecendo. Ento, saiu da cama com vivacidade, sem deixar de olhar para ele. Pelo menos isso a agradava. No podia imaginar a vida sem aquele 
homem, e proferiu essas palavras antes de conseguir evit-las.
   Ele parou.
   - Mas no precisa. Depois da noite passada,  bvio que podemos esquecer essa histria de divrcio.
   - Est dizendo que no est mais entediado comigo?
   - Precisa perguntar, depois do que, aconteceu no chuveiro? - ele perguntou, com o sorriso diablico.
   Mas ela no retribuiu o sorriso. A transa no chuveiro fora incrvel, e eles haviam passado o resto da noite nos braos um do outro. S que ele no falou sobre 
isso.
   Sexo. Era tudo que ele queria dela e, quando estava em oferta, ela era a esposa perfeita. Ele falou isso quando revelou que estava entediado... que o valor dela 
cara significativamente depois que ela havia comeado a rejeit-lo. A noite anterior e a reao dele s sustentavam que a verdade no era uma realidade prazerosa.
   Ela virou a cabea.
   - A noite passada no mudou nada.
   Ele falou um verdadeiro palavro e ela desviou o olhar dele.
   Ele terminou dando de ombros, com um olhar frio e duro.
   - Voc no est me dizendo que ainda pensa que precisamos nos divorciar. Recuso-me a aceitar que esteja falando isso.
   - Mas  o que digo - ela admitiu, com dor de cabea.
   Se os olhares pudessem ser letais, o que ele lanou para ela a teria matado. Ele parecia detest-la, e no falou mais nenhuma palavra. Simplesmente acabou de 
se vestir e saiu do quarto.
   Movimentando-se o mais depressa que podia com as dores chegando perto do insuportvel, ela se vestiu e o acompanhou. Encontrou-o l embaixo, dando instrues 
aos assistentes.
   - Os outros esto esperando no carro - ele falou quando a viu.
   - Cludio.
   - No fale comigo, Theresa. - O veneno na voz dele a silenciou efetivamente.
   Ele a detestava.
   Ficou assim o resto da manh, conseguindo apenas manter um vu de civilidade na frente da famlia. Quando no estavam perto de ningum, mostravam uma violenta 
hostilidade recproca.
   O nico bom momento foi rei Vicente ter passado com xito pela cirurgia, depois da qual pde receber os familiares. Quando Flavia se ofereceu para ficar no hospital, 
ele aceitou e mandou os demais para casa, com a sua caracterstica dose de arrogncia.
   Apesar da melhora contnua do sogro, os dias seguintes foram um tormento para Theresa. De corpo e alma. Cludio ficava na sute somente por aparncia, mas havia 
uma muralha que os separava na cama... quando ele dormia ali. Ele tambm se recusava a falar com ela quando estavam sozinhos, exceto para tratarem dos seus deveres.
   Se ela demonstrasse que ia entrar no campo pessoal, ele arrumava uma desculpa para sair... ou saa sem qualquer desculpa. Quando ele estava presente. O que no 
era freqente. Ela o via mais na companhia de outras pessoas.
   Ele sempre tivera uma agenda muito ocupada, mas agora estava ainda pior. Ele tinha de cobrir as prprias responsabilidades e as do pai. Como lder no trabalho, 
no podia deixar de cumprir nenhum dever. Ele sempre dormiu menos que ela, mas agora ela imaginava que ele chegava a ficar sem dormir.
   Os irmos ajudavam como podiam, mas a funo de Cludio na famlia demandava a maior parte das decises, e os irmos quase no sentiam o peso da responsabilidade 
e do estresse.
   Independentemente do quanto a rejeio dele doesse, sentia-se mal por ele, preocupada, e desejava dez vezes por dia ter pedido o divrcio depois dessa crise. 
Ele se recusava a aceitar conforto ou ajuda dela de qualquer forma, e ela no o culpava; apenas queria ajud-lo.
   O pedido de divrcio arrasou o orgulho dele e feriu seu ego no momento em que ele menos podia lidar com esse tipo de dor. Ele precisava de toda fora interior 
nas circunstncias atuais, mas estava abalado pela raiva e pelo desprezo dela. Ela queria explicar que no era desprezo, mas a dor causada pela endometriose e a 
tontura resultante dos remdios aniquilavam a sua capacidade de justificar qualquer coisa.
   Era tudo o que podia fazer para vencer cada dia. No tinha como brigar com o marido para colocar o casamento em dia... apenas convenc-lo de que no havia outro 
jeito.
   De toda forma, no conseguia deixar de pensar que teria sido melhor pedir o divrcio a Cludio quando ele tivesse voltado de Nova York. Pelo menos poderia evitar 
toda a raiva e a hostilidade que sugam as energias num momento to crtico.
   A culpa por essa tardia percepo a arrasava, tornando mais difcil suportar a dor fsica, e algumas noites ela simplesmente ficava chorando sozinha na cama. 
Como o mdico previu, a dor desse ms era pior do que a do anterior e alguns dias ela achava que no iria sobreviver.
   Seus prprios deveres no desapareceram magicamente por conta da crise familiar, mas aumentaram.
   E ela tinha de passar pelo menos parte do dia no hospital, onde tinha de manter as aparncias.
   Certa tarde estava saindo do quarto do rei Vicente, quando encontrou com Cludio.
   Ele parecia abatido de tanto cansao, mas, quando a viu, colocou uma mscara de invencibilidade.
   - Voc precisa descansar - ela falou, em vez de cumpriment-lo, colocando a mo no brao dele.
   Ele se esquivou do toque dela com a testa franzida.
   - Estou bem.
   - No, no est. Todos dizem que est se esforando demais, mas ningum sabe o que fazer a respeito.
   - No h nada a fazer.  meu dever cuidar do meu pas enquanto meu pai est doente.
   - Seus irmos...
   - Tm as prprias responsabilidades.
   - Esto preocupados com voc. Ele olhou para ela.
   - Algum deles pediu para voc vir conversar comigo?
   - Sim - ela falou, suspirando. - Os dois, na realidade.
   - Eu deveria saber que voc no demonstraria preocupao.
   - Eu me importo com voc, Cludio.
   - Certamente... no se importa.
   Ela estremeceu diante da certeza do tom de voz dele e do cinismo de seu olhar.
   - Sinto muito.
   - Eu tambm. Agora, se me d licena, s tenho vinte e cinco minutos para ficar com meu pai.
   - Vai para casa depois?
   - No.
   - Precisa dormir um pouco.
   - Est me convidando para a sua cama? 
   Subitamente, a expresso dela mudou diante da idia de compartilhar intimamente o corpo com ele, enquanto a dor a incomodava de forma incessante. Ele empalideceu, 
endurecendo o olhar.
   - Bem, isso diz tudo, no?
   - No - ela conseguiu toc-lo antes de ele se afastar. - Por favor, Cludio, me oua.
   Ele olhou para ela.
   - Voc no tem nada para me dizer que eu queira ouvir.
   Uma severa pontada a atingiu e ela se escorou contra a parede na mesma hora. No podia fazer isso agora. As casualidades aconteciam a todo momento e ela no 
podia deixar de evitar.
   - Certo. Nos vemos mais tarde... seja quando for. - Encontrando ar para conseguir caminhar, ela saiu.
   Cludio observou Theresa sair com um misto de raiva e incompreenso. Ela agia como se ele realmente a tivesse magoado, mas era ela quem queria o divrcio. Quando 
ela falou que nada havia mudado depois daquela incrvel transa, ele ficou furioso.
   Ela apenas o usou.
   Saber disso doeu mais que qualquer outra coisa, e ele acabou ficando furioso. Ela no devia mago-lo. Era mulher dele, carne de sua carne... osso de seu osso. 
Sua companheira quintessencial e amante... s que ela havia se transformado numa traidora.
   A fria causada por essa percepo no foi aliviada em seis dias. Ele andava como uma bomba prestes a explodir. Estava agradecido pela carga extra de trabalho, 
pois assim dava vazo  energia gerada pelas emoes contidas.
   No queria que os irmos se preocupassem, mas no tinha inteno de diminuir o ritmo.
   Seu pai e seu pas precisavam dele, mesmo que sua esposa no precisasse.
   
   Theresa acordou tarde da noite com uma dor horrvel e a sensao de umidade no meio das pernas.
   Estava com hemorragia.
   No era nada novo desde que havia comeado a endometriose, mas, normalmente, se conseguisse se levantar e se trocar vrias vezes durante a noite, no teria com 
que se preocupar. Estava to cansada quando foi se deitar que dormiu quatro horas seguidas.
   Ela se esquecera de tomar os remdios para a dor e agora se lembrava deles.
   Ela tentou levantar para cuidar de ambos os problemas, mas caiu de novo na cama, com um grito de dor preso na garganta. O menor movimento agravava sua agonia.
   Mas ficar parada tambm doa. Tanto que ela quase perdia o ar por causa disso.
   Ela olhou para a grande extenso da cama. Cludio no estava, claro. Ele geralmente no vinha deitar antes da madrugada, quando vinha. Dormia no escritrio 
algumas noites e, depois daquele encontro no hospital, ele certamente no planejava outro durante a noite.
   A dor a arrasava e ela gemia, as lgrimas molhavam seus olhos e sua face, enquanto contorcia o corpo. Se ao menos conseguisse pegar os remdios, mas no conseguia 
nem alcanar a mesa-de-cabeceira.
   Como pde ter esquecido de tom-los?
   Ela se arrastou at a beira da cama, mas muito lentamente. Qual era a distncia at a mesa? A dor fazia tudo ao redor parecer embaado. Talvez se rolasse. Ela 
tomou impulso com um dos lados da barriga e quase desmaiou de dor. Teria sido bom, ela pensou.
   Ainda tonta, ela tentou completar o rolamento, mas acabou caindo da cama. Ela podia ouvir algum chorando e queria ajudar, mas no podia se mexer. Ela tentou 
se concentrar na escurido, mas mal podia ver a sombra da mesinha, que parecia mais longe do que quando estava na cama.
   Ela tentou alcanar, os soluos presos na garganta, sem ajudar a amenizar a dor.
   - Theresa? O que diabos est acontecendo? - A luz principal foi acesa, iluminando tudo.
   A luz irritou os olhos dela, e ela os fechou, desmoronando no cho em calafrios, enquanto Cludio corria e falava em italiano.
   - O que aconteceu? - Ele se abaixou ao lado dela, com a mo sobre o seu ombro. - Est sangrando. Vou chamar uma ambulncia.
   - No! - Ela olhou para o marido alto e lindo, com os olhos tomados de lgrimas que ela tentava limpar para conseguir enxerg-lo. - Preciso dos meus remdios 
para dor... na... mesinha... - ela balbuciou diante de outra onda de pontadas.
   - Remdios para dor no vo evitar o sangramento.
   - No precisa...  minha menstruao.
   - O diabo. Est tendo uma hemorragia. Ele pegou o telefone e ela gritou.
   - No! Por favor, Cludio... - ela engasgou e ento gemeu quando a dor a castigou. - Apenas pegue... - Ela respirava fundo, tentando pegar mais ar para continuar. 
- A cama. Por favor. Di... - Ela se aninhou em posio fetal.
   Ele largou o telefone e ela sentiu um cobertor sobre o seu corpo. Ele a pegou, mas no a colocou na cama. Ele se dirigiu  porta.
   - Aonde... vamos? - ela perguntou, sem foras.
   - Para o hospital, e pode parar de discutir. No vou chamar uma ambulncia se no quiser, mas precisa de um mdico.
   - Eu fui ao mdico. Falei para voc... meus remdios... preciso deles.
   - Voc precisa de muito mais que remdio para dor - ele gritou, sem parar de andar.
   - Sim. Cirurgia. Hoje, no.
   - Sim, hoje. Se  o que precisa, ser hoje.
   - No pode.
   - Por que no? - ele perguntou, em frente ao sistema de comunicao da porta deles.
   - No  seguro - ela olhou para ele, seu rosto se contorcia com outro espasmo de dor. - Por favor. Preciso dos remdios.
   Ele olhou para ela com os olhos apertados.
   - Precisa de um mdico.
   - Por favor - ela implorou com tanta dor que faria qualquer coisa pelos remdios.
   Ele cerrou os dentes com fora.
   - Certo, mas acho melhor estar certa em relao a esse sangue. No vou deix-la morrer. Ouviu?
   Ele voltou para o quarto cuidadosamente para no sacudi-la e a deitou gentilmente na cama, antes de abrir a gaveta da mesinha-de-cabeceira. Ele pegou um vidro 
com prescrio mdica, abriu e pegou dois comprimidos.
   Ele colocou o brao por trs dos ombros dela e a levantou suavemente, ajudando-a a tomar os remdios, como se no conseguisse fazer isso por conta prpria. E 
a verdade era que no podia mesmo. Ela estava se controlando ao mximo para no gritar sua agonia.
   Depois de ela tomar os remdios, Cludio a deitou gentilmente na cama.
   - H quanto tempo?
   - De vinte a trinta minutos.
   - Posso fazer mais alguma coisa?
   Ela estava sentindo muita dor para se apegar ao fato de que o homem que lhe oferecia ajuda a tratara como leprosa nos dias anteriores.
   - gua quente ajuda.
   - Para beber ou tomar banho?
   - Banheira... chuveiro tambm.
   Ele assentiu e desapareceu no banheiro. Ela ouviu a gua descendo e ele voltou, nu. Ela no conseguia entender, mesmo que tentasse.
   - Vou tirar sua roupa.
   - Certo - ela falou, entorpecida em razo do rpido efeito dos medicamentos, ingeridos sem comida.
   Ele removeu o cobertor e as roupas dela com mos cuidadosas. Ele praguejou ao ver quanto sangue havia no meio de suas pernas. Ele a observou implacavelmente.
   - Tem certeza de que esse sangue  apenas menstruao?
   - Sim.
   Ele sacudiu a cabea, mas no falou nada. Simplesmente a levantou da cama. Mesmo com toda suavidade, o movimento ainda a atingiu, provocando ondas de tontura, 
quando a dor a castigou novamente.
   Ela gemeu.
   Ele praguejou.
   - Isso no pode ser normal, cara.
   - No falei que era normal - ela murmurou, cornos olhos fechados e a cabea apoiada nos ombros dele.
   Estranhamente, ele no perguntou o que era.
   - Estou surpresa - ela falou.
   - Com o qu?
   - No est fazendo perguntas.
   - No faz idia do quanto aparenta estar terrvel, faz?
   - Pareo terrvel? - ela perguntou, com lgrimas rolando pela face. - Feia?
   - Doente, mulher tola. Est branca feito papel e parece que at uma brisa pode derrub-la.
   - Di.
   - Eu sei. - E parecia arruinado por reconhecer isso, mas ela devia ter ouvido mal.
   Por que se importaria por ela sentir dor, se a detestava?
   Mas a forma como ele a segurava no era cruel nem impessoal. Ele a segurava como se ela fosse preciosa e, mesmo que fosse uma iluso, ela se abraou a ele, necessitando 
daquele conforto e muito fraca para fingir.
   Ela no havia entendido para onde iam at ele parar no chuveiro j quente, e ento ela compreendeu por que ele ficara nu. Ele planejava segur-la enquanto tomava 
banho. Lgrimas de alvio rolaram sob os seus olhos fechados enquanto a gua quente caa em sua pele.
   Ele no a deixou sozinha com sua dor e ela sentia-se pateticamente agradecida. Ela manteve os olhos fechados, sem se importar por cair gua no rosto. Ele jogava 
gua na direo das pernas dela, para que pudesse limpar o sangue.
   - Tem muito sangue - ele repetia em um tom de voz baixo.
   - Fica pior todos os meses - ela disse, refletindo sobre a sua falta de constrangimento por v-lo cuidando dela assim.
   Mas quantas vezes ela havia desejado que ele estivesse l para cuidar dela, que ele se importasse a ponto de perceber o quanto a menstruao dela passara a 
ser dolorosa e a confortasse por isso? Tais pensamentos eram fantasia antes, mas agora eram reais, e ela tinha dificuldade de lidar com eles.
   Ele cuidou dela com uma eficincia e uma compreenso instintiva que causaram admirao em Theresa.
   Ela no sabe por quanto tempo ficaram sob o chuveiro, mas em algum momento ele falou:
   - Acho que j pode ir para a banheira. O sangramento parou ou diminuiu consideravelmente.
   - Ele vem e volta - ela falou cansada, enquanto permitia que ele a levasse para a banheira.
   Ele no a colocou l como ela imaginava, mas entrou junto com ela. Ela murmurou algo em protesto.
   - No pode tomar banho sozinha nessas condies.
   - S quero ficar deitada aqui.
   - E vai ficar... nos meus braos.
   Ela no discutiu mais e ele a acomodou entre as suas pernas e com os braos em torno do dorso dela. Ele cuidou de tudo para ela. Ela suspirou aliviada, com os 
remdios fazendo efeito, e se recostou contra ele em paz.
   Ela deveria se sentir culpada por deixar que ele cuidasse dela, mas era to bom... to certo para sentir-se culpada. E descansar em uma banheira no era nada 
mal para ele tambm, uma voz dentro de sua cabea a convencia.
   Conforme a dor passava e a sensao de bem-estar aumentava, ela se permitia relaxar.
   - Isso  bom.
   - Est se sentindo melhor?
   - Sim - ela suspirou. - Mas vamos ter que sair logo.
   - Por qu?
   - Posso comear a sangrar novamente. Ele suspirou.
   - Concordamos que essa menstruao no  normal.
   - No, no .
   - O que est acontecendo?
   - Tentei contar no avio voltando de Nova York, mas voc no quis ouvir. - O que era uma acusao, e no uma resposta, mas ainda doa o fato de ele estar to 
pronto para abrir mo do casamento que sequer havia se importado com as razes dela.
   - No, eu teria me lembrado.
   - Sim, tentei.
   - Quando tentou me contar sobre essa horrvel hemorragia e toda essa dor? - ele perguntou, ainda parecendo duvidar dela.
   - Quando tentei dizer que temos que terminar nosso casamento, mas a voc falou que queria terminar de qualquer forma, e isso no pareceu ter mais importncia. 
- Por mais que tentasse, no conseguia encarar isso com tranqilidade.
   Isso a arrasou, o que estava explcito na sua voz. O forte corpo dele foi tomado de tenso.
   - Foi por isso que pediu divrcio? Por causa da dor e da hemorragia?
   
   
   CAPTULO OITO 
   
   - De certa forma, sim.
   - Explique de que forma.
   - No pareo mais terrvel? - ela perguntou com um pouco do seu antigo senso de humor.
   - Parece to cansada que mal consegue ficar acordada e devamos deixar para amanh, mas no posso.
   - Nem eu - ela admitiu. Queria contar a verdade Queria que ele parasse de olhar para ela como se fossem inimigos. - Tenho endometriose.
   - O que  isso?
   Ela tentou concentrar a mente confusa para descrever tecnicamente.
   -  uma doena ligada ao meu ciclo menstrual.
   - Consegui perceber isso.
   - Sim, bem... No sou um mdico. No  fcil para mim explicar doenas.
   - Desculpa, eu no devia ter sido sarcstico.
   - Certo - ela estava contente por ele no a estar encarando, pois achava que no suportaria se tivesse de ver a reao dele. - Eu... um...
   - Comece pelo comeo. O que causa a dor?
   - Em termos clnicos,  como se houvesse tecido similar ao uterino em outras reas da minha plvis... bem, pode ser de outras reas, mas  pouco provvel.
   - Che chosa! - ele perguntou, parecendo impressionado.
   - Voc teve educao sexual na escola?
   - Isole dei Re determina que o sistema de ensino pblico cobre algumas informaes nos ltimos anos antes da universidade.
   - E voc estudou em escola pblica? - ela perguntou interessada, sem ter atentado para esse ponto antes.
   - Si. Claro. Se  boa para as outras pessoas,  boa para ns. Chega de falar de escola, explique sobre esse tecido que mencionou.
   - Bem, como eu ia dizendo, voc se lembra das fotos na escola sobre o sistema reprodutor feminino?
   - Sim.
   - timo. Pequenos pontos de tecido na parte externa das trompas de Falpio ou nos ovrios... ou nas paredes vaginais.
   Os msculos da coxa dele estavam duros de tenso.
   - Quer dizer que eles se desenvolveram em todas essas partes em voc?
   - Sim.
   Ele estremeceu. Ela suspirou.
   - Podia ser pior. Na realidade, tenho sorte. - Mas no tanta quanto as mulheres que permaneceram frteis.
   - No me parece com sorte. Ento essas leses causam dor?
   - No so cortes...  o desenvolvimento do tecido, mas ele  preenchido com sangue durante o ciclo menstrual. No tem para onde o tecido ir, e isso causa dor. 
Muita dor - ela acrescentou.
   - Essa dor... dificulta a transa, no? 
   Ela bateu no lbio e assentiu.
   -  por isso que vem se esquivando de mim tantas vezes nos ltimos meses? - ele perguntou, com a voz curiosamente neutra.
   - Sim - ela falou, suspirando.
   - No entendo por que o divrcio. Certamente sabe que, se tivesse me contado sobre a dor, eu no teria insistido no sexo.
   Se fosse assim to simples...
   - Sim, eu sabia disso. - Mas saber disso no mudava o fato de que sem sexo ela no valia nada para ele.
   Ele poderia ficar casado com ela sem o problema de infertilidade, mas no ficaria feliz com isso. Ela refletia se no tinha dado uma mancada ao contar. Tinha 
a ligeira suspeita de que a raiva dele o havia tornado mais honesto do que nunca.
   - Ento, por que o divrcio?
   - Meu mdico falou que de trinta a quarenta por cento das mulheres com endometriose se tornam infrteis.
   Ele respirou fundo.
   - O que quer dizer que sessenta por cento no se tornam.
   - No estou entre elas.
   - O que est dizendo?
   - O mdico me contou que praticamente no h chances de eu engravidar sem uma fertilizao in vitro e, mesmo assim, no h garantias.
   - Mas voc fez exames de fertilidade antes do casamento.
   - A endometriose no  previsvel. Eles no sabem o que causa a doena. No h marcas que apaream nos exames antes da manifestao, portanto os mdicos no tinham 
como saber que eu teria isso, menos ainda sobre o impacto na minha capacidade de engravidar.
   - E seu mdico est certo sobre o impacto da doena em sua capacidade reprodutiva?
   - Sim.
   Houve um silncio entre ambos que ela no podia suportar, ento falou:
   - Alguns pesquisadores estimam que essa seja a causa de at cinqenta por cento da infertilidade feminina.
   O que no dizia nada sobre a devastao emocional que aquilo causava. Os nmeros frios eram apenas isso at que se aplicavam ao corpo de uma mulher que teria 
a vida toda alterada por causa da doena.
   - Ento, obviamente muitas mulheres tm esse problema.
   - Sim - ela podia at fornecer vrios nmeros, mas eles no importavam.
   O problema existia e, por mais que desejasse o contrrio, no poderia mudar.
   - Quando comeou?
   - No tenho certeza. Meu mdico diz que as plulas anticoncepcionais so um dos remdios prescritos. Pode ter comeado em qualquer momento desde que nos casamos... 
mesmo antes, mas eu no sabia que as clicas que eu tinha eram to incomuns.
   - Os exames...
   - J falei, no h exames que comprovem. Os exames de fertilidade de rotina s teriam acusado se eu estivesse doente antes do casamento, mas eu no estava.
   - Ento, pode ter ficado doente a qualquer momento?
   - Sim, mas normalmente s se manifesta quando a mulher tem vinte e poucos anos.
   - Entendo.
   - Entende? - Ela esperava que sim.
   - Como descobriu que sofria disso agora?
   - Pela dor.
   - Sinto muito.
   - Eu tambm. Depois que parei de tomar as plulas, passei a sangrar mais e a sentir mais clicas.
   - Nunca falou nada.
   - No era um peso para voc carregar.
   - Como pode dizer isso? Sou seu marido.
   - Mas sou responsvel por mim mesma.
   - Ento achou que no precisava saber o que estava acontecendo?
   - Inicialmente no, mas... - ela suspirou e contou sobre quando acordou sobre uma poa de sangue no banheiro. - Depois disso, vi que tinha que descobrir o que 
estava errado.
   - Mesmo assim, guardou para si mesma a descoberta.
   - Fui educada assim.
   - No acredito que seus pais esperariam que lidasse com algo dessa natureza por conta prpria.
   - Ento voc no os conhece como imagina. - De repente, morta de cansao, ela recostou novamente nele.
   As bombas para dor estavam causando o efeito previsvel e seu crebro estava ficando confuso. Felizmente, ela falou quase tudo que tinha a ser dito.
   - Talvez - ele admitiu, surpreendendo-a. Normalmente era arrogante demais para admitir que estava errado. - O diagnstico foi completamente confirmado?
   - Sim - ela virou a cabea na direo dele e fechou os olhos com o corpo to relaxado que quase adormeceu.
   Ele falou algo, mas ela no entendeu.
   - Theresa...
   - Hmmm...
   - No est acompanhando.
   - Os remdios me deixam zonza. Quero dormir agora.
   Ela no precisou falar duas vezes. Ele a levantou da banheira e cuidou dela como se fosse uma criana. Ele a secou e vestiu, assegurando-se de prepar-la para 
o sangue da noite.
   Ento, ele a levou para o quarto e a deitou na cama.
   Ele falou algo a que ela no respondeu. Estava muito ocupada se aninhando no travesseiro e adormecendo. Registrou vagamente ter sido abraada por ele antes de 
se entregar ao total esquecimento.
   
   Cludio olhou para o relatrio do detetive sobre a sua mesa sem muita ateno. No trazia grandes revelaes. No depois da noite anterior. Agora ele sabia... 
tudo. No havia outro homem. Theresa no fora infiel nem queria se divorciar dele porque queria uma relao melhor.
   Queria o divrcio e o fim do casamento porque a doena estranha a deixava virtualmente estril.
   Ela no via futuro para eles, mas ele se rebelava inteiramente contra essa perspectiva.
   No deixaria que ela partisse.
   S que ele suspeitava que as coisas no se passariam como ele queria. Theresa podia ser incrivelmente teimosa e havia decidido que o casamento no era mais vivel 
porque no podia garantir que lhe desse filhos, um herdeiro para o trono. Mesmo se ele pudesse convenc-la de que no via a situao dessa forma, que queria que 
ela ficasse, ela poderia insistir em partir pelo bem de Isole dei Re.
   Ela levava seus deveres ao pas adotado muito a srio. Passou vrios meses escondendo sua doena para proteger seus habitantes e a famlia real do turbilho 
que seria a especulao sobre a sua sade. Ele no podia acreditar que fora estpido o bastante para achar que ela tivesse um caso.
   Mesmo que se apaixonasse, ela era to intensamente ciente de seus deveres que jamais faria alguma coisa comprometesse sua posio. Saber disso no o deixava 
mais tranqilo.
   No quando ela se recusou a continuar a conversa naquela manh. Insistiu que no tinha tempo, pois precisava visitar o pai antes de comear a agenda do dia. E 
ela riu com sarcasmo quando ele sugeriu que ela ficasse na cama descansando.
   - Estou lidando com isso h meses e no tenho o hbito de me esquivar de minhas responsabilidades por causa disso.
   - Mas est doente - e ele no sabia, droga.
   - Estava doente no ms passado tambm, mas no fiquei de cama.
   - Talvez devesse ter ficado.
   - Isso est vindo do homem que me arrasou por eu ter cancelado meus compromissos para ir a Nova York encontr-lo?
   Cludio sabia que sua reao a este fato o atormentaria por muito tempo.
   - Eu no sabia que isso estava em jogo.
   - Nada estava em jogo.
   - Poderia ter dito isso quando pediu o divrcio, no?
   - Posso dizer quando sei que  verdade. Fui infeliz no momento de lhe contar. Devia ter esperado que voc voltasse.
   - No, devia ter me contado assim que soube. - E definitivamente antes de ter pedido o divrcio, mas no diria isso.
   Atribuir sua reao violenta ao fato de ter pensado que ela tinha um caso no ajudaria em nada. Tinha de pagar por seus pecados com humildade... embora isso no 
fosse fcil. No era um estado natural para ele.
   - Voc no estava por aqui para eu contar - ela falou com uma inesperada raiva em seus olhos verdes. - No nesse momento do ms. Voc sempre teve o cuidado de 
planejar suas viagens de negcios de acordo com a minha disponibilidade sexual.
   Ela soava como se no passasse de uma convenincia sexual.
   - No era assim.
   - Era e  exatamente assim. Tem feito isso praticamente desde o incio do nosso casamento.
   - Mas no era porque eu a visse como uma convenincia sexual. - Ele comeou a programar as viagens dessa forma quando percebeu que Theresa ficava constrangida 
de transar menstruada. Ele sempre a desejava, ento a melhor soluo era sair do caminho da tentao.
   - Podia ter me enganado.
   - Aparentemente enganei. Ela deu de ombros.
   - Tenho que ir.
   Mas ele no podia deixar a situao dessa forma. Tinha de esclarec-la.
   - Eu no viajava sempre que voc ficava menstruada. Podia ter me falado, mas optou por esconder.
   - Voc no facilitou as coisas, no ?
   - O que diabos quer dizer com isso?
   - Voc tem xingado muito ultimamente - ela comentou.
   - E voc vem mentindo para mim h meses.
   - Escondendo... no  a mesma coisa. Pergunte a qualquer poltico.
   - Mas no  poltica.  minha mulher.
   - Sou uma princesa... no mundo de hoje, isso equivale a ser uma poltica.
   -  princesa porque  minha mulher. Nosso relacionamento vem antes.
   - Como aconteceu em Nova York? - ela perguntou, enquanto se encaminhava para a porta.
   - Voc me pegou de surpresa.
   Ela abriu a porta com uma expresso desafiadora.
   - Cludio, voc sempre tem dificuldade de enxergar em se tratando do nosso relacionamento. Voc v o que quer ver, percebe apenas o que  conveniente e desconsidera 
completamente todo o resto. Tentar reescrever nossa curta histria pelos meus sentimentos ou pelo seu orgulho no vai mudar nada.
   - Pensei que fosse muito feliz como minha esposa. Pelo menos at estes ltimos meses.
   - Eu era, mas isso no altera o fato de voc ter colaborado tanto para que eu escondesse minha doena de voc. Por que foi to fcil, Cludio? Por que foi difcil 
perceber que alguns meses era tudo que eu podia fazer para agentar?
   Ele no tinha resposta, seu estmago estava revirado diante da pergunta e seu corao, apertado de forma dolorosa. Ela saiu do quarto. No havia mais perguntas. 
Sem mais cenas, apenas uma sada digna... algo em que era muito boa.
   Ele conseguiu ir almoar no palcio, mas ela o tratava como a um estranho. Tomasso, Maggie e Flavia tambm estavam presentes e ele recebeu alguns olhares estranhos 
deles, mas ningum se intrometeu.
   Cludio imaginava como podia estar to bvio que eles tinham um problema e ningum comentar a respeito, mas no se lembrava das coisas de forma diferente. Eram 
uma famlia real e no expunham suas preocupaes em pblico, mas quando chegara ao ponto em que ele no podia perguntar  esposa por que estava sendo evasiva?
   Ele fez suposies sobre o assunto, mas no podia ter passado mais longe. Achava que ela estivesse tendo um caso e isso o torturava. Mas ele nunca perguntou 
por que ela no queria fazer amor com a mesma freqncia, por que ficava fora do ar algumas vezes em que conversavam e por que comeou a rejeit-lo.
   Por que no perguntou?
   A resposta fcil era que ele no queria ouvir o que esperava que fosse a resposta, mas era mais complicado que isso. Tinha a ver com uma regra velada da famlia 
de no se discutirem desprazeres. Uma regra sobre a qual ele no tinha conscincia at agora.
   Os Scorsolini eram homens de ao, mas conversar sobre algo abstrato como sentimentos era um pecado para eles. E admitir fraqueza era algo ainda pior. Admitir 
que ele estava preocupado e que sentia falta da generosa paixo da mulher na cama teria ido alm de sua capacidade.
   O que isso significava? Que ele estava tentando fingir que nada havia mudado, quando, de fato, tudo havia mudado.
   Enquanto estava s, sua esposa lutou contra essa horrvel e dolorosa doena e no contou a ningum. Porque ningum perguntou. Ele no perguntou. Ele sentiu a 
culpa o consumindo. Devia saber que algo estava errado, mesmo sem perguntar. Ela estava com a razo... ele facilitou muito para ela esconder a doena, mas no porque 
no se importasse.
   Ele conseguiria convenc-la disso?
   Ele tinha a impresso de que ela achava que ele no gostava dela, e nada podia estar mais longe da verdade. Ele pensou que ela estava ficando entediada com a 
transa deles, quando, na realidade, estava simplesmente se protegendo. Ela no percebia que um homem precisava saber disso?
   Olhando para o relatrio, ele tinha de reconhecer que, aparentemente, fora uma grande coisa ela ter escondido alguns fatos dele durante os trs anos de casamento. 
Fatos que ela, obviamente, no percebia que ele devia saber.
   Ele no compreendia o porqu de ela ter um mdico secreto em Miami. Ela dizia que ia a esse mdico desde antes do casamento para tratar qualquer coisa de natureza 
delicada. Quantas consultas marcou secretamente, quantas viagens fez para se consultar?
   E como conseguiu fazer isso se viajava acompanhada de seguranas? Ele no gostava da sensao de haver todo um lado da esposa que ele no sabia existir. Ele 
no gostava nem um pouco dessa situao.
   Ela disse que o mdico era discreto e por isso o procurara. No queria fofocas nos tablides, mas isso no explicava sua reticncia em contar a verdade a Cludio. 
Era seu marido, mas ela o tratava como adversrio. No confiava nele.
   Ela podia no ter outro homem na vida, mas Cludio tambm no ocupava o local que era seu. E se os comentrios dela nos ltimos meses fossem um indcio, ela 
tambm no acreditava que tivesse o papel adequado nas prioridades dele. O casamento deles estava com problemas em aspectos totalmente diferentes do que ele supunha, 
mas no havia mais problemas.
   Ela no estava atendendo a essas necessidades agora e tinha alguma idia descuidada de acabar com tudo de uma vez. Queria acabar com o casamento porque seu corpo 
no cooperaria com sua funo de prover um herdeiro para ele. Parecia pensar que ele aceitaria e aprovaria essa chamada soluo. Mas no havia nenhuma honra em abandonar 
uma mulher porque ela no podia ter filhos. E ele fora um homem criado para salvar a honra.
   Ela aprenderia que um Scorsolini no desistia diante das adversidades.
   
   
   CAPITULO NOVE
   
   Theresa estava se vestindo quando Cludio entrou no quarto. Ela olhou rapidamente para ele e desviou o olhar. Ele tinha uma expresso contra a qual ela no queria 
brigar no momento. As olheiras de seu rosto demonstravam cansao, ms seu olhar expressava eloqente determinao.
   Ele havia tomado alguma deciso. E por que ela tinha tanta certeza de que brigaria com ele por causa disso? Ela no sabia, mas seus instintos a avisavam para 
ficar apostos.
   Ele colocou a mo sobre o ombro dela e ela teve de brigar contra uma ao retaguarda que seria a resposta natural do seu corpo ao toque dele. Queria encostar-se 
nele, roar sua extenso, mas sabia que s podia contar com a prpria fora.
   O polegar dele roou a curva do pescoo dela.
   - Como est se sentindo, cara? 
   Afastando-se do toque insidioso, ela sorriu diante da pergunta que j ouvira inmeras vezes naquele dia.
   - Bem.
   Ele suspirou e se moveu para o outro lado do quarto.
   - Por que no acredito em voc? - ele perguntou, enquanto comeava a tirar o terno.
   - Porque suspeita de tudo - ela debochou, sem olhar para ele. O contato visual com sua forma espetacular no fazia bem para o autocontrole dela. Mesmo quando 
a possibilidade de fazer amor estivesse to fora dos limites.
   - Talvez isso seja justificvel - ele respondeu, com um tom baixo de que ela no gostava.
   Ela olhou para ele, mas ele no a estava olhando, pois retirava a camisa. O corao dela acelerou quando viu aquele lindo corpo desnudado. Uma forte onda de 
possesso tomou conta dela, e tudo o que no podia fazer era cruzar aquele quarto e tocar aquela pele nua para declar-la sua.
   O lado primitivo dela no compreendia a necessidade de encerrar o casamento.
   - O que quer dizer? - ela perguntou com o tom de voz um pouco elevado.
   Cludio virou para olhar bem na hora em que ela devorava seu corpo com o olhar, mas no percebeu.
   Ele abotoou a camisa enquanto a desafiava com os olhos.
   - Voc escondeu muita coisa de mim nos ltimos meses. Uma dor que devia ter me revelado. Uma hemorragia que poderia ter sido perigosa. Posso ser perdoado por 
no acreditar que voc esteja bem agora.
   O julgamento complacente dele a irritou. Ela o estava protegendo, droga.
   - Quer saber a verdade? - ela perguntou repentinamente, fulminando-o com os olhos. -Estou com tanta clica que quero me deitar e morrer, mas no vou fazer isso, 
e falar para voc no vai mudar nada.
   Ele empalideceu diante daquelas palavras, mas no deu sinais de que recuaria.
   - No posso consertar o que desconheo.
   Tipicamente um macho Scorsolini, achando que tinha controle sobre tudo o que conhecia no universo.
   - Voc no pode consertar isso mesmo. E por isso ela agradecia. Ela se virou para sair e quase esbarrou nele.
   Ele a segurou com as mos em seus ombros, com uma expresso sorridente.
   - Talvez no possa livr-la dessa doena, mas posso pedir que tragam uma bandeja para que coma na cama.
   Era to tentador, mas no podia se entregar  endometriose agora.
   - No.
   Ele franziu o cenho, apertando os olhos em desaprovao.
   - Por que no?
   - No quero que sua famlia fique especulando sobre a minha sade. Eles j esto sob muita tenso e preocupao.
   - E voc tambm.
   -  minha escolha, Cludio.
   - E se eu tirar essa escolha de voc? No fora um comentrio vazio. Ela podia ver nos olhos dele. Ele continuaria a provocao.
   - No me ameace. Ele murmurou algo em tom de desgosto.
   - No estou a ameaando. Estou tentando cuidar de voc como deveria ter feito nos ltimos meses.
   Oh, no... Um homem Scorsolini no modo culpado era terrvel.
   - Isso nunca foi sua funo, Cludio. No preciso que cuide de mim. No sou criana.
   - Como pode dizer que no  minha funo?  minha esposa. Minha responsabilidade.
   - Um prncipe no pode ter essa viso da vida.
   - Este prncipe tem.
   Ele no tinha idia do quanto ela desejara ouvir isso antes, mas j havia aprendido que uma princesa no podia contar com mimos quando estava doente. Pelo menos 
no do marido. Nem de ningum, se tivesse deveres a cumprir.
   - Isso  novidade.
   - Talvez - ele reconheceu, sem se desculpar. - Mas ainda  o certo a ser feito.
   - No, no . Isso significa que voc se preocupa com tudo e ainda me inclui na sua lista de fardos, mas no vou deixar. Ouviu? Voc j tem preocupaes demais.
   - No vou ignor-la porque tenho outras coisas que exigem minha ateno tambm.
   - Por que no? J fez isso antes.
   A boca dele se acomodou em um trao firme.
   - Isso no  verdade. Ela se afastou.
   - Voc tem muita percepo.
   - Houve vezes em que tive de coloc-la em segundo lugar, sim, mas fui forado pelas circunstncias. Nunca a esqueci ou ignorei nos meus pensamentos e na minha 
considerao.
   Ele soava como se fosse importante que ela acreditasse nele, mas ela no estava pronta para outra discusso sobre o casamento agora. Ela no exagerou quando 
disse que estava com dor, e a discusso no estava ajudando.
   - Precisamos nos apressar ou vamos nos atrasar para o jantar.
   - Prefiro que fique aqui e descanse.
   - No.
   Ele suspirou novamente.
   - No quer que minha famlia se preocupe com voc, mas tudo bem se eu me preocupar por voc no se cuidar direito.
   - No estou fazendo nada para arriscar minha sade - ela falou com exasperao.
   - Est sentindo dor, no devia se esforar tanto.
   - Jantar com a sua famlia no  algo que considero esforo.
   - Por que est acostumada a colocar os deveres em primeiro lugar?
   - No foi o que disse em Nova York.
   - Foi exatamente o que eu disse, se voc se lembra. Por isso seu comportamento me assustou e preocupou tanto.
   - No agiu como se estivesse preocupado, mas irritado. Na realidade, furioso.
   - Estava com raiva. Acreditei que tivesse razes diferentes da sua doena para fazer aquilo.
   Ela parou com a mo na maaneta, curiosa. Que motivaes ele teria atribudo ao comportamento dela que o haviam deixado to furioso por ter ido a Nova York?
   - Que razes?
   - Nada que eu queira falar agora.
   De alguma forma, ela sabia que ele estava escondendo algo... talvez importante.
   - Mas eu quero discutir isso. - Ento o alarme do jantar soou no interfone e ela franziu a testa. - Vamos falar sobre isso depois do jantar.
   - No h necessidade. No  importante.
   - Para mim  - mas talvez ela fosse tomar os remdios para dor antes.
   Ele deu o brao a ela.
   - Vamos?
   Ela pegou o brao dele, incapaz de esconder a eletricidade provocada pelo toque.
   - Sem mais discusses sobre eu estar fora da cama?
   - Estou poupando energia - ele abriu a porta.
   - Para qu?
   - Para a nossa discusso depois do jantar.
   - Mas voc falou que no queria discutir aquele assunto - ela no acreditava que ele estava cedendo to facilmente a uma conversa que lhe era to desagradvel.
   Era to atpico. Ela tinha toda inteno de pedir para ele esclarecer, mas daria muito trabalho.
   - No quero, mas temos outros itens na agenda.
   - Como?
   - Como o fato de que no haver divrcio. No havia como responder, pois eles encontraram Maggie e Tomasso no corredor e caminharam juntos. Marcello e Danette 
aguardavam quando eles chegaram.
   Ele sorriu ao ver Cludio com Theresa.
   - Fico contente por ter decidido fazer uma refeio decente para variar.
   - Eu tenho comido - falou Cludio.
   - Com muito estresse, no ambiente de trabalho ou na sua mesa. O tempo com a famlia  mais relaxante.
   Cludio sorriu, fazendo com que o corao de Theresa revirasse no peito.
   - Tem certeza?
   Sua afeio pelos irmos era bastante forte. Tudo o que queria era que isso sasse facilmente dela, mas nunca conseguiu, e agora tinha essa idia estapafrdia 
de que continuariam casados. Mas ela sabia que seria pelas razes mais erradas... razes que nunca poderia aceitar.
   A culpa dos Scorsolini estava agindo. Mas isso no era suficiente para carregar um casamento que enfrentaria os desafios que o deles enfrentaria. No por muito 
tempo.
   - Mas  claro - falou Marcello. - Voc negaria?
   - No - respondeu Cludio seriamente. - A semana foi muito agitada.
   Marcello e Tomasso aquiesceram. Tomasso falou:
   - Gostaria de poder fazer mais pelos deveres do papai.
   - Mas no pode - Cludio sorriu. - Eu sou o herdeiro. Sozinho, devo fechar vrias lacunas deixadas pela estada dele no hospital.
   - Eu esqueo da presso a que todos vocs so submetidos quando estou com Marcello na Itlia. O mundo parece to normal l. Mas no momento em que chegamos aqui, 
o fardo que todos vocs carregam fica aparente - Danette sacudiu a cabea. - Rezo sempre para ser mais fcil para os nossos filhos.
   - Acho que ser - falou Tomasso.
   - Sim - Marcello acrescentou. - Precisa lembrar disso, amante, que nosso filho tem apenas um prncipe, e no um rei como pai.
   - Isso  verdade - comentou Tomasso -, mas mesmo os filhos de Cludio tero a vantagem de uma famlia mais extensa para ajudar na diviso dos deveres.
   - Mas os filhos de Cludio ainda tero que enfrentar momentos mais difceis que os nossos.
   Tomasso concordou com um suspiro.
   - Eu me sinto egosta com a minha gratido, mas agradeo por meu filho no ter que crescer para ser o rei de Isole dei Re um dia.
   - Ser estranho saber que nossos filhos escolhero os prprios caminhos, enquanto os primos tero o futuro mais determinado pelo nascimento - falou Maggie, preocupada.
   - Voc se incomodava, quando criana, de ver que no tinha alternativa a no ser tornar-se o rei? - perguntou Danette a Cludio, enquanto todos iam para a sala 
de jantar.
   Cludio aguardou at acomodar Theresa  mesa para responder. Ento olhou para Danette.
   - Nunca me rebelei contra o meu destino. Lembro-me desde cedo de saber que um dia eu seria o rei e que essa funo trazia srias responsabilidades. Muitas vezes, 
isso quis dizer que eu tinha de colocar minha vida particular em segundo plano.
   Theresa sentiu que havia uma mensagem para ela nessas palavras.
   - No invejo a posio de Theresa - falou Maggie com um sorriso para a cunhada. - Deve ser muito difcil dividir o marido assim com todo o pas.
   Theresa no podia negar as palavras, mas havia algo de muito errado nelas tambm. Se Cludio a amasse, ela no achava que compartilh-lo com o povo de Isole dei 
Rei seria ruim.
   -  uma funo difcil, mas minha esposa sempre esteve  altura - falou Cludio, demonstrando aprovao por ela com a voz.
   Ela virou para olhar para ele e, por vrios segundos, os demais ocupantes da mesa pareciam ter desaparecido. Havia apenas ela e Cludio, e uma mensagem estava 
sendo trocada entre eles sem palavras.
   Por uma razo que ela desconhecia, lgrimas comearam a queimar seus olhos.
   - No posso me arrepender de ter me casado com voc.
   - No quero que se arrependa - ento ele se inclinou para frente e fez algo que jamais fez.
   Ele a beijou suavemente no meio dos lbios na frente da famlia. Depois, ele se levantou e comeou a conversar com os irmos como se nada de extraordinrio tivesse 
acontecido.
   Mas Theresa sentiu o mundo girar.
   
   O jantar foi festivo, mas  medida que o tempo passava, ficava mais difcil para Theresa segurar a dor. A clica estava ficando muito forte novamente, quase debilitadora. 
Provavelmente porque no havia tomado nenhum remdio o dia todo para no ficar muito tonta a ponto no conseguir dar conta das obrigaes.
   - timo, porque apenas um canalha ignoraria o desconforto de sua menstruao e sua dor para tentar algo assim.
   - Nunca falei coisas assim de voc.
   - Talvez no com tantas palavras... - Ele aquiesceu mas deixou claro que ela o convencera de que pensava assim.
   Ela olhou perplexa para a expresso dura dele.
   - Nunca sugeri que via voc assim.
   - Como voc acha ento considerar o divrcio como a nica opo depois que descobriu que tinha endometriose?
   - Prtica. Chamo isso de praticidade - a nica soluo que fazia sentido. Particularmente agora, que ela sabia que ele estava entediado com ela. Isso veio ao 
encontro da realidade de que seu valor para ele era unicamente sexual. Mas, mesmo sabendo que era verdade, parte dela se rebelava.
   Parte dela... a parte muito tola... simplesmente se recusava a acreditar.
   Ele no falou nada, mas sua expresso no era agradvel.
   Quando eles chegaram a seus aposentos, ele a levou direto para o quarto.
   - Vou pegar seus remdios.
   Ele a deitou na cama e pegou os remdios e ela os tomou, como na noite anterior.
   - Essa  a sua verso para mimo?
   - Est se sentindo mimada? Independentemente da dor, ela sorriu.
   - Sim.
   - Ento, sim.
   - Obrigada.
   - No me agradea.  seu direito.
   - Ento est sendo to cuidadoso comigo por dever?
   - Diga-me uma coisa, cara.
   - Sim?
   - At os ltimos meses, sua resposta na cama e sua generosidade com seu corpo eram tudo que um homem poderia desejar.
   - Foi o que voc disse - ele a valorizava por isso.
   - Isso era resultado do seu dever?
   - No, claro que no. Como pode me perguntar isso?
   - Com tanta facilidade quanto voc me pergunta se o que fao por voc agora  puramente obrigao.
   - Voc no me ama, Cludio.
   - Eu me importo com voc. Sempre me importei.
   - Eu tambm achava isso... no comeo.
   - O que mudou?
   - No sei. Talvez nada.
   - Mas, ainda assim, voc se convenceu de que no me importo.
   - Voc falou que estava entediado.
   - Estava irritado. Era mentira.
   Ela no acreditava nele, mas se inclinou diante de mais um ataque de dor antes de falar. Ele a deitou mais.
   - Theresa?
   O aperto no abdome relaxou um pouco e ela conseguiu se ajeitar, respirando ofegante para suportar a dor.
   - Est muito ruim? - ele perguntou.
   - Sim.
   - Que tal ir para o hospital?
   - No.
   - No est sendo razovel.
   - Discutir no ajuda. Ele cerrou os dentes.
   - No devamos ter ido jantar.
   - Se eu me lembro, voc props que eu jantasse aqui, e no voc.
   - Mas, naturalmente, eu teria ficado com voc. No havia nada de natural nisso. Na realidade, todo esse paparico era atpico na relao deles.
   - Por qu?
   - Est doente.
   - E voc tem obrigaes com a famlia.
   - Que eu fiquei contente em ignorar em favor das minhas obrigaes no escritrio, na semana passada. Fiquei no palcio por voc.
   - No entendo por qu.
   -  minha esposa - ele falava isso como se explicasse tudo.
   - Eu era sua esposa h dois anos tambm, quando fiquei gripada, e voc no ficou comigo. Na realidade, voc me pediu para ir para outro quarto a fim de me recuperar 
e no haver risco de contamin-lo. Era a sua esposa ano passado, quando fiquei resfriada e voc me deixou aos cuidados dos empregados para ir para a Itlia a trabalho.
   Ele olhou para ela como se no entendesse a correlao.
   - As circunstncias eram diferentes.
   - Como?
   - Voc no estava morrendo de dor e sabamos que o mal-estar logo acabaria.
   - E os deveres foram mais importantes do que qualquer gesto que expressasse carinho e ternura...
   - Queria que eu me tornasse seu enfermeiro? No vi esse desejo em voc na poca.  uma pessoa muito independente quando est doente. Mas acho que  assim de uma 
forma geral, extremamente independente, sem contar com a teimosia.
   - Obrigada. E no sou independente.
   - Ah, . To independente que resolveu tomar decises por conta prpria sobre o nosso casamento sem consultar o outro principal interessado antes.
   - Foi para isso que fui para Nova York... para consultar.
   - Um pedido de divrcio no  uma consulta.
   - Eu no ia comear dessa forma, mas voc me colocou de uma forma defensiva pelo fato de ter ido para l.
   - Eu havia chegado a uma concluso equivocada e me deixei levar por ela, desculpe. - Ele falou como se estivesse constrangido, e ela se lembrou do comentrio 
antes do jantar.
   - Que concluso falsa?
   - Prefiro no falar sobre isso.
   - Que pssimo... s de imaginar o que faria voc sentir-se to desconfortvel est me fazendo esquecer a clica.
   Ele falou algo que ela no entendeu, mas ele no conseguiu esconder a irritao quando se encostou na cabeceira da cama.
   Diante do olhar inquisitrio dela, ele deu de ombros: 
   - Se vai me detonar, quero estar em uma posio confortvel. 
   Ela escondeu um sorriso inesperado. Ele pareceu bem carrancudo. 
   - Conte sobre suas falsas concluses.
   
   
   CAPITULO DEZ
   
   - Era uma concluso que fazia sentido na poca.
   - Voc est me enrolando. Fale-me qual foi.
   - Achei que voc tivesse conhecido outra pessoa.
   - O qu?
   Ele corou ligeiramente.
   - Fiquei obcecado pela idia de voc ter conhecido outro homem. Seu pedido de divrcio s piorou.
   - Por qu? - ela perguntou atnita.
   - Eu no conseguia pensar em outra razo para voc querer se divorciar.
   - Mas...
   - Voc comeou a me recusar sexualmente. Eu no entendia.
   - Isso doa.
   - Mas voc no me falou. Tive de tirar minhas prprias concluses.
   - E concluiu que eu tinha um amante.
   - No consegui chegar to longe, no conseguia imaginar isso.
   - Obrigada... eu acho.
   - Voc comeou a divagar em nossas conversas... como se estivesse pensando em outra coisa.
   - Os remdios.
   - Sim.
   - Pensei que nem tivesse notado.
   - Notei, acredite.
   - Mas decidiu que a razo era meu corao ter se tornado infiel a voc, se no meu corpo.
   - Eu no podia assegurar que j possua seu corao.
   - O que quer dizer com isso?
   - Nunca disse que me ama.
   - O amor no era uma exigncia em nosso acordo de casamento.
   - No, no era.
   Inexplicavelmente, ela tinha a impresso de que ele queria que fosse... para ela. Mas por que desejaria o amor dela se no sentia nada profundo por ela? No fazia 
sentido. Assim como esse novo desejo dele de paparic-la porque estava doente.
   Ou fazia sentido?
   - Acho que entendi.
   - Fico contente.
   - No o fato de voc ter acreditado que eu havia conhecido outra pessoa - ela rapidamente tirou esse conforto dele. - Mas acho que entendo sua necessidade de 
me mimar agora.
   - Por que est doente?
   - Porque est se sentindo culpado por ter pensado que eu era infiel.
   - Essa no  a razo para eu querer cuidar de voc agora.
   - Mas voc se sente culpado.
   Uma vez na vida era muito fcil ler os pensamentos dele. Estavam escritos em todas as expresses sofridas dele.
   - Sim. Eu devia ter percebido que estava doente.
   - Pelo menos notou que meu comportamento no estava normal.
   - Claro que sim.
   - No h nada de claro sobre isso. Achei que voc no se importava por eu ter comeado a rejeit-lo na cama.
   Ele olhou para ela como se ela tivesse perdido a cabea.
   - Isso  um absurdo. Naturalmente me importava, mas no seria uma criana petulante em relao a isso. Se uma mulher diz no,  no.
   - E por que minha rejeio no era importante?
   - Claro que era importante.
   - Mas voc preferiu achar que eu era imoral a perguntar.
   - Eu perguntei. 
   Ento ela lembrou.
   - E eu no quis falar sobre isso, mas estava ocorrendo h meses. Por que esperou tanto?
   Ele se movimentou na cama, com o rosto expressando forte passividade.
   - Meu orgulho ficava arrasado quando eu era rejeitado sexualmente por voc. Falar sobre isso s pioraria as coisas. Eu me sentiria como se estivesse implorando 
um favor seu.
   - Isso  um absurdo.
   - No .  verdade. Por que acha que viajei tanto quando estava menstruada?
   - Porque era conveniente.
   - Voc no espera muito de mim, no ?
   - No  verdade.
   - Acho que , mas no  o que estamos discutindo, portanto deixa pra l. Eu organizava meus planos de viagem para que coincidissem com suas menstruaes, pois 
havia deixado claro que o mais leve toque nessa fase a deixava desconfortvel. Eu considerei um grande desafio manter minhas mos longe de voc e a melhor soluo 
foi sair totalmente da cama. Pode acreditar ou no... mas organizei minha programao pelo seu bem, e no pelo meu.
   - Voc no tem problemas em no me tocar fora do quarto?
   - Se realmente pensa assim, est cega. Eu a tocaria o tempo todo, mas no  adequado para um rei tocar sua mulher dessa forma.
   - Ainda no  rei.
   - Mas serei. E por conta de minha futura posio, tenho padres para o meu comportamento. Atingir esses padres me desafia, especialmente quando se trata de voc. 
O nico local que me permito ficar completamente livre  no nosso quarto. E acho muito difcil policiar meu comportamento aqui tambm - ele falou, como se admitisse 
um grave pecado.
   - Eu no havia percebido...
   - Em minha prpria defesa, achei que soubesse.
   - Como podia?
   - Pensei que meu desejo por voc fosse bvio.
   - No era bvio quando voc aceitou a rejeio to facilmente e agiu como se nada de diferente estivesse ocorrendo entre ns. Pensei que no tivesse importncia.
   - Agora sabe que no  assim.
   - Sim, sei que sexo  um elemento fundamental na nossa relao.
   - Fala disso como se fosse uma coisa ruim.
   Ela mordeu o lbio e desviou o olhar. At que ponto poderia ser honesta? Seu casamento havia acabado, mesmo que ele no quisesse reconhecer. Fazia algum sentido 
remexer em antigas feridas? Mas, novamente, ela no havia ficado muito tempo escondendo coisas dele?
   Ela se virou para encar-lo.
   - Eu gostaria que voc se importasse comigo em um nvel alm do sexual.
   - O que  mais ntimo que sexo?
   - No sei como explicar - ela admitiu. -  que eu queria ser importante por voc pelo que sou... no apenas por causa do prazer que encontra no meu corpo, ou 
pelo meu bom desempenho no papel de esposa.
   - Quer que eu a ame.
   - Talvez - ela deu de ombros. - Talvez nada menos que amor teria me satisfeito, mas isso no tem mais importncia.
   - No quer mais o meu amor?  por isso que briga contra os meus mimos, como chama? Est contente em ficar sem mim?
   - No quero brigar pela sua ateno - ela falou enquanto bocejava, pelo efeito dos remdios. -  que isso ocorreu como uma surpresa.
   A verdade era que gostava disso. Muito. Se permitisse a si mesma acostumar-se, seria ainda mais difcil partir, mas, ao mesmo tempo, ela no conseguia ter fora 
de vontade suficiente para impedi-lo.
   - Estou contente por estar comigo agora - ela falou suavemente. - Mesmo se devesse estar em outro lugar. Sei que tem muitas responsabilidades agora para se preocupar 
comigo, mas no consigo deixar de gostar dessa ateno. Acho que isso me enfraquece.
   Na realidade, ela falava para si mesma, mas ele respondeu.
   - No, no enfraquece. Faz de voc um ser humano - ele parecia satisfeito com alguma coisa, mas ela no sabia precisar o qu.
   Ela suspirou.
   - Pode ser, mas voc no pode ficar me ligando vrias vezes por dia ou continuar bancando o enfermeiro.
   - Precisa parar de querer cuidar de todos no mundo. Posso lidar com as ligaes telefnicas e, se eu no me importar com voc, quem se importar? Voc se recusa 
a contar para outras pessoas sobre a sua doena.
   Ele tinha uma certa razo, mas ela no podia deixar barato. Estava tentando fazer tudo parecer to simples, e no era. S que seu crebro confuso estava tendo 
dificuldade de conectar as idias. Ela se lembrou de uma coisa.
   - No teve tempo para me ligar antes.
   - Eu ligava... at voc parar de atender todas as minhas ligaes.
   Ela olhou para ele, lembrando vagamente e tentando clarear a mente. Era verdade. Ele costumava ligar vrias vezes por dia, de qualquer lugar do mundo. No havia 
nenhuma razo especfica para as ligaes, a no ser um breve contato. Ele falaria sobre a sua agenda e perguntaria sobre os compromissos dela. Na realidade, grande 
parte da comunicao deles foi feita assim. S quando ele parou de ligar que ela notou. Ela comeou a ignorar as ligaes ou at mesmo desligar... porque ele no 
dizia a coisa certa.
   - Parecia que estava apenas verificando se eu cumpria bem meu papel de princesa. As ligaes eram muito impessoais.
   E isso doa, assim como quando ele parou de ligar.
   - Como poderia t-las feito de forma mais pessoal?
   Olhando para trs, ela via que, para ele, as ligaes eram pessoais, eram sua forma de ficar com ela quando os deveres os separavam. A garganta dela apertou 
de emoo.
   - Podia dizer... s uma vez... que sentia minha falta.
   - Sinto muito por no ter verbalizado isso. Pensei que as ligaes por si passariam a mensagem.
   - Ligava porque sentia saudade? - ela perguntou, chocada diante dessa possibilidade.
   - Si. Por que outra razo eu ligaria para tratar de assuntos to sem importncia?
   - No sei. Meu crebro est ficando confuso. Ele franziu a testa e se levantou.
   - Se seguir o padro de ontem  noite, no conseguir mais conversar em vinte minutos, e tem uma coisa que quero discutir antes que apague.
   - Ontem foi pior porque perdi muito sangue e dormi pouco - ela comentou.
   - Se  o que diz - ele comeou a retirar os sapatos dela. - Voc falou que cirurgia  a cura adequada para endometriose?
   - No exatamente a cura, mas quase.  minha melhor alternativa para levar uma vida mais perto do normal e sem dor. - Ele tirou os sapatos dela e depois a meia-cala. 
O olhar dele ardia de paixo quando ele viu as pernas expostas dela, mas o toque foi quase totalmente impessoal.
   - O que eles fazem? S precisam retirar seu sistema reprodutor?
   Pelo menos essa conversa era fcil. Ela pesquisou tanto as alternativas que poderia falar sobre elas, mesmo sonolenta.
   - No, agora no mais. Eles podem remover o tecido extra por meio de uma cirurgia a laser. O tempo de recuperao  mnimo e no precisarei passar a noite no 
hospital depois.
   - Mas passar.
   - Passarei? - ela perguntou delicadamente, com os olhos pequenos.
   O olhar que ele lanou dizia que ela podia discutir o quanto quisesse, mas j havia tomado uma deciso.
   - Mesmo as cirurgias a laser trazem risco e so traumticas ao corpo. No concordo com essa abordagem mdica de querer se livrar to cedo dos pacientes.
   - Tenho certeza de que isso tem mais a ver com as empresas de seguro que com as preferncias mdicas. Se quiser pagar por isso, no tenho dvida de que o hospital 
vai querer que eu fique. - Ela imaginou que isso aliviaria a culpa dele.
   - E essa cirurgia...  garantida?
   - No, mas como eu falei...  minha melhor alternativa. Um grande porcentual de mulheres que opta por isso acaba tendo reincidncias mais tarde.
   - Parece um preo baixo a pagar, se for aliviar a dor e o tipo de sangramento que voc vem tendo.
   - Concordo.
   Ele estava retirando o vestido dela e ela permitia. Independentemente do que tivesse dito em contrrio, era maravilhoso v-lo cuidando assim dela. Especialmente 
porque ela sabia que logo no estaria mais ali para esfregar suas costas em um banho sensual.
   - Precisa se cuidar para dormir?
   Ela estava passando a perna para o lado da cama.
   - Sim.
   Mas, antes de levantar por conta prpria, ele novamente a levantou e a conduziu ao banheiro. Ele deixou que ela cuidasse das coisas e estava nu na cama, trabalhando, 
quando ela voltou.
   - No precisa ir dormir s porque vou.
   - Garanto que no  nada demais, depois da semana que tive.
   Ela assentiu, muito tonta para discutir.
   - Pelo menos, vai tentar dormir antes da meia-noite?
   - Quer que eu tente? - ele perguntou, como se a idia o satisfizesse.
   - Sim, no quero que tenha infartos como seu pai.
   - Isso seria falta de sorte, no? Afinal, quem governaria o pas se os dois estivessem convalescendo?
   - Minha mente est rodando, mas no estava pensando no bem de Isole dei Re - ela falou com mais ternura do que o faria sem o efeito dos remdios. - Eu me preocupo 
com voc. Eu... vou dormir.
   Ela subiu na cama, sem acreditar que quase havia declarado seu amor a ele.
   
   Cludio trabalhava ao lado da adormecida Theresa, com a mente dividida entre os deveres e sua esposa. Se ao menos ela soubesse que esse no era um estado emocional 
to incomum. Mas, da maneira como ela havia falado, era como se ele se preocupasse com ela apenas num nvel perifrico.
   E ele permitiu que ela acreditasse nisso. Foi uma deciso consciente, mas ele no havia previsto as conseqncias. Ele estava se protegendo de seguir o caminho 
do pai. Nunca quis um amor que transformasse um homem forte em uma farsa. Depois da conversa com o pai no hospital, talvez ele tenha entendido o que orientou o rei 
Vicente anos atrs, mas a compreenso no trouxe a paz.
   O resultado foi o mesmo. O amor tornava os homens uns tolos.
   Mas ser que negar a emoo terna de sua relao com Theresa significou alguma melhoria na vulnerabilidade que o amor causava? Ainda se sentia vulnervel... ainda 
sentia medo de perd-la. No melhorou nada... e, depois da concluso errada sobre o comportamento dela, ele se sentia um idiota.
   Mais que um idiota: sentia-se como um monstro cruel. Nunca fora sua inteno ferir Theresa por ter se casado com ele. Ele acreditava que estava oferecendo a ela 
uma vida boa e pensava que seria um bom marido. No um marido normal - um rei no poderia ser assim -, mas um marido bom, acima de tudo.
   Ele no havia previsto os acontecimentos atuais, mas mesmo assim... falhar de forma to grave em seu primeiro teste real como marido era de amargar. Ele no lidava 
bem com as falhas. Nunca falhava, pois trabalhava muito para evitar isso. Mas no havia dvidas de que havia julgado mal a mulher e, ao faz-lo, causou-lhe ainda 
mais sofrimento.
   Tambm destruiu laos fracos que, se no consertasse, terminariam com seu casamento. Ele no aceitaria isso, mas no sabia exatamente o que fazer para corrigir 
o problema. Sentia-se impotente e no gostava disso.
   Um prncipe a caminho do trono no podia sentir-se impotente.
   No estaria assim se ela se importasse com ele... o amor dela poderia ser um vnculo a uni-los, mesmo se ele tivesse cometido alguns erros horrveis de julgamento. 
Mas ela no o amava. Embora, por um momento... um pouco antes de Theresa ir dormir, ele pensou que ela falaria que o amava. E queria ter ouvido essas palavras. 
Muito.
   Mas ela no as pronunciou e ele ficara pensando que talvez tivesse sido sua imaginao. Mesmo se ela lhe tivesse amado antes - e ele achava possvel -no amava 
mais.
   Por que doa tanto reconhecer isso?
   Como ela lembrou, o amor no era parte do acordo do casamento.
   Mas ele queria seu amor. Ele... precisava dele. De alguma forma, tinha de convenc-la a continuar casada... e talvez se o fizesse, daria a si prprio outra chance 
diante do amor que aquecera sua alma antes de ele perceber sua existncia. Ela havia se casado com ele apaixonada e somente agora, olhando para o passado, ele percebia 
isso.
   Ela provavelmente pensava que ele no se importava, mas estava errada. Importava-se muito. Estava equivocada tambm sobre o divrcio ser a nica soluo para 
o dilema deles. Assim como estava errada ao dizer que as ligaes dele no significavam sua expresso de saudade. S agora ele percebia o quanto ela havia interpretado 
mal as coisas, e ele no sabia como consertar.
   Ele fora treinado para ser um governante, mas no fora ensinado a abrandar as emoes de uma mulher, a convenc-la do seu afeto. Ele e Theresa no viam o mundo 
da mesma forma e ele cometeu o erro de pensar que sim. Por causa da forma como ela foi educada. Mas ainda era uma mulher, diferente dele, e seus pensamentos seguiam 
uma lgica diferente da dele.
   Ele sups que ela soubesse muitas coisas que, voltando no tempo, ele tinha de admitir que no eram bvias para ela como eram para ele. Ele no sabia se isso 
era parte das divergncias entre homem e mulher ou se era algo exclusivo de suas personalidades, mas no importava. Ela fez pressuposies errneas, assim como 
ele. Se ele pudesse admitir as falhas das prprias suposies - e todos aceitavam que ele era bastante teimoso -, ela tambm poderia.
   
   - Deve estar brincando. Fazer a cirurgia agora  impossvel.
   Em um raro momento de solido, Theresa estava relaxando em um dos seus locais favoritos nos fundos do palcio, quando Cludio a encontrou. O sol aquecia sua 
pele enquanto uma leve brisa soprava seus cabelos. Era gostoso e pacfico... mas no mais. Agora Theresa tinha um metro e oitenta de energia masculina vibrando na 
sua frente.
   Cludio sentou-se na praia ao lado dela e sua vitalidade chamava ateno dos sentidos dela em um nvel que no tinha nada a ver com razo ou lgica.
   - O mdico falou que no haver problemas se voc fizer a cirurgia quando a menstruao cessar por completo, e isso ocorrer em cerca de dois dias.
   Ela no estava acostumada a essa discusso franca, pois h quase trs anos s tratavam disso na cama. Mesmo assim, havia coisas de que ela simplesmente no falava. 
Ele havia quebrado qualquer tabu no casamento deles quando cuidou dela na outra noite, e no tinha a menor vontade de voltar a ter a anterior relao fechada.
   Aceitando essa verdade com toda graa que podia reunir, ela argumentou.
   - Essa no  a nica coisa a considerar. Seu pai est vindo para casa hoje e ainda convalescer por um tempo.
   Cludio ficou tenso e sua boca esboou um trao de preocupao.
   - Est dizendo que prefere esperar at ele se restabelecer completamente? - ele perguntou, incrdulo.
   - Bem, pelo menos at ele ficar bem o suficiente para comear a reassumir seus deveres.
   - Isso ser daqui a seis semanas - ele falou.
   - Sim, eu sei.
   Cludio acariciou a nuca de Theresa com uma expresso severa.
   - No vou permitir que passe por outra menstruao dessa forma.
   -  meu corpo - mas as palavras vieram sem que pensasse. O toque dele provocava sensaes nela que ele nem sabia.
   Ela no estava acostumada  afeio casual e no sabia como agir agora.
   - Si.  seu corpo... um corpo lindo e generoso e  meu privilgio e minha responsabilidade garantir que cuide bem dele.
   - Voc  meu marido, e no meu pai.
   - Seu pai teria ignorado sua dor. Eu, no.
   Ele estava certo, mas, de alguma forma, essa lembrana no a machucava mais como antes.
   - No quero que seu pai fique chateado. Cludio largou a nuca de Theresa e pegou sua mo.
   Ele alinhou os dedos deles.
   - Suas mos so to pequenas, to delicadas... to lindas.
   O ar congelou no peito dela por um segundo e ela inspirou quando seu corao comeou a saltitar. Ele havia comentado vrias vezes, enquanto faziam amor, o quanto 
gostava das mos dela em seu corpo, mas nunca havia falado algo assim fora do quarto.
   - Hum... seu pai...
   Cludio entrelaou a mo na dela e sorriu, desconcertando-a ainda mais.
   - Vicente est bem. Sob a minha solicitao, ele ficou mais dias no hospital do que o inicialmente previsto. Durante esse tempo, ele vem descansando e tendo 
suas ligaes restritas, mas tem se levantado e caminhado, visitado outros pacientes. Est se recuperando bem.
   - Mas ainda est fraco.
   - No deixe que ele a oua.
   Theresa tinha de reconhecer a justia desse aviso.
   - E tudo o que Flavia pode fazer para mant-lo no hospital e descansando por longos perodos.
   - Precisamente. S agradeo pelo fato de mame ter decidido que essa  a hora de voltar para a vida dele, pois acho que nenhum de ns teria sido bem-sucedido.
   - Eles formam um bom casal.
   - Sim. Pena que levaram tanto tempo para descobrir.
   - A infidelidade no  algo fcil de ignorar.
   - Nenhum dos dois ignorou, eu sei... mas parece que ela superou o passado.
   - Fico contente - ela adorava os dois e ficou muito contente por terem se reencontrado.
   - Eu tambm, mas no acho que voc vai fugir da conversa. Conversei com seu mdico em Miami e ele concordou em vir para c em quatro dias para realizar a operao.
   - Voc no tem o direito de ligar para ele - ela reclamou. - E no quero fazer a cirurgia aqui.
   Cludio olhou para ela e toda a sua amabilidade havia desaparecido, embora o toque de sua mo permanecesse gentil... como se, mesmo enraivecido, ele ainda a acariciasse.
   - Voc no tinha o direito de manter sua doena em segredo de mim. Podia ter feito a cirurgia h meses.
   - J falei por que agi assim.
   - No concordo com suas razes. Devia ter me contado. Essa  a verdade.
   - As vezes, voc  arrogante demais para conversar.
   - S s vezes.
   Ela riu. No conseguiu evitar. Ele estava sendo autoritrio, mas era para o bem dela, e no para mago-la. Ela sabia disso.
   -  que s vezes me d vontade de esgan-lo.
   - No consigo imaginar minha pequena e adequada esposa esganando nada. - Ele falou perto do ouvido dela e seus lbios lhe deram um suave beijo na testa.
   Ela levou trs segundos para conseguir responder. Como sabia que deveria lutar contra o impacto daquele beijo, ela se forou a enfrentar um lado difcil da realidade.
   - Uma esposa adequada poderia lhe dar um filho. Eu no poderei e, se fizer a cirurgia aqui, todo mundo ficar sabendo. Voc ser considerado sem corao e egosta 
quando nos separarmos.
   Em um movimento totalmente inesperado, ele a agarrou pela cintura, colocou-a no colo e segurou-lhe o seu rosto, de forma que no tivesse escolha, a no ser encar-lo.
   - No haver separao e, se tentar me deixar, serei rotulado como coisa pior que isso.
   - O que quer dizer? - ela perguntou, constrangida pela fraqueza de sua voz.
   - No vai me deixar, Theresa.
   - No est falando em seqestro... no pode estar. - Mas, pelo olhar dele, ela podia dizer que ele estava pensando nisso. - Isso  ridculo, Cludio. No  um 
dos seus ancestrais saqueadores.
   - Quem disse que meus ancestrais eram saqueadores?
   - Eram piratas, pura e simplesmente. Usaram sua recompensa obtida de forma ilcita para estabelecer um pas, mas no foram os pilares da sociedade descendente.
   - Est dizendo que sou um pirata sob a minha camada de civilidade? - ele perguntou, soando horrivelmente dessa forma.
   - No... estou tentando lembr-lo que  um desses descendentes civilizados e racionais - ela olhou dentro dos olhos dele e o que viu lhe causou arrepios.
   - Eu teria concordado com voc... antes, mas, nas ltimas semanas, eu descobri uma at ento desconhecida veia de primitiva possesso relacionada a voc que remonta 
efetivamente a meus ancestrais.
   - Ento percebe que est a...
   - Sim. E voc deve perceber tambm, o que quer dizer que deve notar o quanto seria estpido me deixar.
   Ela olhou para a complacente certeza dele.
   - Se eu decidir, eu vou.
   Ela queria dizer isso mesmo. Talvez no fosse descendente de piratas sicilianos, mas tinha o sangue dos romanos nas veias, bem como uma boa dose da segurana 
americana.
   
   
   CAPITULO ONZE
   
   - No decida ir embora - o protesto na voz dele era mais impressionante que o fato de ter se permitido revelar sua veia primitiva de forma to espalhafatosa.
   - O que far? - ela perguntou suavemente, tenando ler a expresso dele, mas sem compreender o que via.
   Ele ficou em silncio por alguns segundos e suspirou.
   - Eu a seguirei.
   Ela riu, pois era um absurdo. Era mais orgulhoso que seu pai e, se Vicente fora incapaz de se curvar para pedir desculpas por um comportamento que ele reconhecia 
como repreensvel, Cludio nunca deixaria de caar sua esposa fujona. Alm disso, ele no poderia, mesmo se tentasse.
   - Seus deveres no permitiriam e voc nunca se rebaixaria para ir atrs de mim como um cachorrinho.
   - Os cachorrinhos so inofensivos. Eu no. No duvide... Eu a seguiria.
   - Mas os seus deveres...
   - Meu primeiro dever  minha esposa... e nosso casamento. No deixarei que parta.
   Ele deixaria... se ela realmente quisesse. Com veia primitiva ou no... ele era um homem moderno. Mas o que ele dizia ali era que no facilitaria. Ela no sabia 
se tinha foras para lutar contra o desejo dos dois para que ficasse. Porm, ela no estava mais certa de que teria foras para permanecer em um casamento em que 
no era amada.
   Doa, tanto quanto a endometriose. Ela havia aprendido algo na noite anterior. Sua dor e sua vulnerabilidade que resultavam de amar sem ser amada fizeram com 
que ela interpretasse mal as aes dele, provocando mais dor em seu sofrido corao. Sem o amor dele, ela no continuaria a fazer a mesma coisa?
   Mesmo que quisesse com todas as suas foras evitar.
   Ela colocou sua mo sobre a mo dele.
   - Precisa ser razovel. Por favor, Cludio.
   - Voc  que no est sendo razovel.  perigoso e tolo esperar para fazer a cirurgia. E  muito limitador da sua parte achar que temos de nos divorciar.
   - Sou estril. No posso lhe dar um herdeiro.
   - Seu mdico diz que a fertilizao in vitro apresenta taxas de setenta por cento de sucesso em pacientes com endometriose.
   - Isso no  garantia.
   - Assim como a concepo normal.
   - Mas voc ter mais chances de ter filhos com uma mulher que no tenha endometriose.
   - No quero outra mulher!
   Ela recolheu a mo e se inclinou para trs em um movimento brusco, atordoada diante da veemncia dele.
   - Isso  apenas sua culpa falando mais alto.
   Ele sacudiu a cabea e seu olhar foi tomado de uma forte raiva.
   - No  culpa. Voc  minha esposa. Quero que continue como minha esposa. Se no h outro homem, por que reluta tanto?
   - No h outro homem - ela exclamou. - No acredito que vamos voltar a esse assunto.
   - Ento, por qu?
   -  pelo bem do pas, Cludio. Voc veria isso se pensasse com o crebro, e no com o orgulho.
   - No - ele olhou para ela de forma ameaadora. - O bem do pas ser obtido se voc permanecer como minha esposa.
   Ela no podia acreditar que ele estivesse sendo to teimoso.
   - No, sei eu no posso lhe dar filhos.
   - Se no pode, tenho irmos e um sobrinho para assumir o trono.
   - Voc ouviu seus irmos ontem  noite. No querem que um de seus filhos sofra as presses de crescer para ser o rei.
   - Porm - ele falou, sem o menor gesto de desculpa -, eles podem no ter nascido primeiro, mas so filhos do rei. Se eu morrer antes de ter um filho, Tomasso 
teria de assumir minha funo e seu filho herdaria o trono.
   Ela colocou as duas mos no peito dele, precisando sentir o calor dele sob os seus dedos.
   - No fale sobre morrer.
   - No fale que vai me deixar.
   - No  a mesma coisa.
   - No. E pior, pois um homem no escolhe quando vai morrer, mas est falando em matar conscientemente nosso casamento e sair da minha vida.
   - Para o seu prprio bem. No entende isso? - ela apelava, com a voz trmula.
   - Entendo que acredite que seja para o meu bem, mas est errada.
   - Mas...
   - Pare de discutir comigo. Voc assumiu um compromisso vitalcio comigo, princesa Theresa Scorsolini. No permitirei que o descumpra. No permitirei que me deixe.
   - No pode me impedir.
   - Posso. Mesmo se voc fugir, no vou me casar novamente. No haver outras chances de herdeiros para mim.
   - Quando concluirmos o divrcio, voc mudar de idia - ela falou magoada, pois sabia que seria verdade.
   - No haver divrcio. Talvez eu no seja to arcaico a ponto de prend-la fisicamente contra a sua vontade, mas nenhum de ns vai se casar novamente.
   - No pode impedir isso.
   - Posso ser impotente para impedir certas coisas, minha pequena e intransigente esposa, mas estamos falando das leis de divrcio de Isole dei Re, e no das dos 
Estados Unidos. No pode se divorciar de um membro da famlia real sem o consentimento dele. No vou lhe dar o consentimento. Nunca.
   - Isso  arcaico.
   - Pode ser - ele deu de ombros, obviamente no ofendido com o julgamento. - Mas  a nossa lei. E nos casamos aqui, Theresa... e no nos Estados Unidos. Lembre-se 
disso.
   - Mas...
   - Nada de mas - ele parecia extremamente contente com a declarao, como se tivesse tirado um forte peso das costas.
   Ela no entendia. Certamente, para ela, o casamento era um peso.
   - Voc quer ser pai.
   Ele sorriu e colocou uma das mos gentilmente sobre o abdome dela.
   - Sim, e gostaria muito que voc carregasse meu filho, mas podemos adotar um, se no puder conceber. Ser uma excelente me se tirar essa idia de divrcio 
da cabea.
   - No podemos adotar - ela engasgou. - E quanto ao progenitor?
   - Claro que podemos. Quanto  ascenso ao trono, terei de nomear meu sobrinho como sucessor, mas isso pode ser feito. Somos uma realeza moderna, e no meus ancestrais.
   - Nem parece o mesmo homem que acabou de me falar sobre uma lei arcaica.
   - J falamos demais sobre esse divrcio. - Ele a levantou cuidadosamente do seu colo e colocou-a no banco. Ento, ele se levantou e olhou nos olhos dela com censura. 
- Voc  uma das pessoas com mais compaixo que conheo, mas parece no se importar em passar como um trator por cima dos meus sentimentos e ideais. Se tudo o que 
queria era um doador de esperma quando nos casamos, por que no foi a um banco de esperma?
   - O qu? - Ele perdera a cabea? - No penso em voc como um doador de esperma!
   - Mas no momento em que descobre que no posso engravid-la, voc quer se divorciar.
   - No  pelo meu bem, mas pelo seu - ela enfatizou, mas comeava a duvidar da validade dos prprios argumentos.
   Ele claramente no queria o divrcio. Se era culpa, senso de responsabilidade, orgulho ou apenas puro desejo fsico, ele queria continuar casado... com ela. Ela 
no havia previsto essa reao.
   Ele ainda olhava para ela.
   - No ser para o meu bem se eu estarei infeliz.
   - O divrcio o deixaria infeliz?
   - Que diabos pensa que estou falando aqui? Ela olhou para ele, sem saber o que dizer.
   - Diga alguma coisa.
   - Estou chocada.
   - E isso me irrita. O que fiz para voc acreditar que nosso casamento no significa nada para mim?
   - Casamos-nos por convenincia. E no por amor. Eu sabia quando me pediu para ser sua esposa. Eu cumpria suas exigncias. Todas elas.
   - Est certa... Casei com voc porque era a mulher ideal para mim. Sendo este o caso, o que a fez pensar que eu no nutria sentimentos por voc? Claro que tenho. 
- Mas ele parecia surpreso com as prprias palavras, como se ele tivesse tido algum tipo de revelao interior.
   Ela se recusou a especular o que poderia ter sido. Machucara-se muito recentemente para acreditar em iluses romnticas.
   - Voc  tudo que eu sempre quis em uma mulher e mais, cara - ele falou mais calmamente.
   - Mas no me ama.
   - O que  o amor, se no  o que temos?
   Pelo menos para isso, Theresa tinha uma resposta pronta.
   -  o que seus irmos tm pelas esposas deles. J vi um homem Scorsolini apaixonado... No  da mesma forma que voc  comigo.
   - Ento, o que acha que sinto por voc?
   - Desejo. Acho que gosta de mim... ou pelo menos gostava. Acho que sente culpa agora... porque queria ter percebido minha doena antes e mesmo porque foi cruel 
quando pedi o divrcio sem lhe dar explicao.
   - Mas tem certeza de que no a amo?
   - Sim.
   - Acho que estamos quites - ele falou, suspirando. - Mas as coisas vo mudar aqui.
   Com essa declarao, ele virou e saiu.
   
   Com o retorno do rei Vicente para casa, a situao ficou muito agitada durante o resto do dia para Theresa pensar nas palavras de Cludio. Porm,  noite, quando 
estava sozinha rios aposentos deles, enquanto Cludio trabalhava representando o pai, ela remoia aquilo intensamente.
   Ela sugeriu acompanh-lo ao jantar, mas Cludio se recusou, e no seria dissuadido por nada. Ela teve de garantir a ele que estava melhor, o que era verdade, 
antes de ele ir. O que foi uma guinada para ele.
   Os deveres vinham em primeiro lugar para Cludio Scorsolini.
   Vinham... talvez ainda viessem. Ele falou que o dever dele mais importante era o casamento, mas nem sempre fora assim. Ela sabia. Havia muitas evidncias contrrias. 
O que havia mudado? Ou talvez ela estivesse teimando em acreditar que tudo tivesse mudado. Ser que a culpa era forte o suficiente para motivar algum a mudar da 
forma como Cludio estava mudando? Parecia um forte esforo, mesmo para um Scorsolini.
   Alm disso, o que ele quisera dizer mais cedo?
   Ao dizer que estavam quites, ele estava afirmando que concordava com ela e que tambm achava que no a amava? Ou dizia que no acreditava que ela o amasse? E 
em qualquer um dos casos... o que queria dizer com "as coisas vo mudar"? Independentemente da forma como ela encarava isso, o amor estava entrando no acordo do 
casamento... por deciso de Cludio.
   Embora resistisse, ela acabou contando  famlia sobre a sua doena no dia seguinte. Tambm revelou que faria uma cirurgia, e quando. Em um ato que seria totalmente 
fora de cogitao, Cludio continuou, contando que, embora a cirurgia fosse cuidar dos sintomas dela, ela j havia sofrido muito com a doena e que, sem uma fertilizao 
in vitro, provavelmente se tornaria estril.
   Os irmos dele e o pai ficaram claramente atnitos com a abertura dele, mas as outras mulheres trataram da notcia como se fosse algo que toda a famlia devesse 
saber. Mas, como Theresa pensou, as notcias causaram menos alvoroo na famlia com Flavia por perto.
   Todos estavam presentes na reunio familiar.
   Theresa estava sentada no canto, perto da sogra. Cludio a puxara para perto, em vez de deix-la pegar uma poltrona, o que era um hbito comum. Ento, ele passou 
o brao sobre os ombros dela com descarada possesso. Era bom, mas estranho.
   Os lindos olhos escuros de Flavia se encheram de emoo.
   - Sabia que havia algo errado, mas hesitei em falar. Sinto muito. Deve ter sentido dor muitas vezes, e, ainda por cima, escondeu.
   Theresa no pde negar, mas no queria que a sogra se sentisse culpada por isso. No era culpa de Flavia que a endometriose causasse tanta dor. Nem de ningum 
mais.
   - Est tudo bem. Se tivesse dito alguma coisa, no teria mudado nada.
   - Ao contrrio, se tivssemos conhecimento antes, voc poderia ter comeado logo o tratamento.
   Ela olhou para Cludio.
   - No  culpa da sua me.
   - No falei que era, mas, se tivesse contado antes, teria sido melhor para ns e muita coisa poderia ter sido evitada.
   Ela no acreditava que ele estivesse falando sobre isso na frente da famlia.
   - No vamos tocar nesse assunto agora - ela sussurrou.
   - Se  o que quer, mas  a verdade.
   Ela mal conseguiu controlar um suspiro de irritao.
   Tomasso riu do outro lado da sala e Maggie o cutucou.
   - O que  to divertido, fratello mio?
   - Theresa est irritada com voc.
   - Acha engraado? - perguntou Cludio, sem achar graa.
   - Tem de admitir que no  tpico dela - falou Marcello, com diverso nos olhos.
   Theresa olhou para os dois, imaginando o que havia acontecido com eles.
   - Acham uma piada o fato de eu estar chateada com meu marido? - ela perguntou, intrigada.
   Em geral, eles eram mais sensveis que isso. Eram Scorsolini, o que significava que no eram os mais intuitivos quando o assunto era emoo, mas aquilo era estranho.
   Danette mordeu o lbio e sorriu, encolhendo os ombros.
   - Voc precisa admitir que no  do seu temperamento, querida.
   - No dia em que seu pai e Cludio me fritaram, voc ficou muito irritada com eles, mas foi bastante sutil. Uma clssica princesa - Maggie sorriu. - Para dizer 
a verdade, fiquei admirada.
   Theresa no sabia o que dizer. Eles estavam certos... Quando escondia as emoes, ela no era nada. Mas por que eles achavam isso engraado?
   - Quando voc est irritada com meu irmo, no esconde o fato - falou Cludio a Maggie.
   Cludio olhou para Theresa.
   - Nosso casamento no  to diferente dos deles. Naquele momento, quando ele se comportava com ela da mesma forma como os irmos agiam com as esposas, ela no 
sabia o que dizer...
   - No, no acho que seu casamento seja to diferente - falou Flavia, com uma expresso implacvel. - Mas eu imaginava quando voc acordaria para isso, filho.
   - Posso assegurar que estou bem acordado agora - respondeu Cludio, enquanto se permitia piscar para a madrasta, longe de estar ofendido com o comentrio.
   Era quase como se houvesse outro nvel de comunicao silenciosa entre eles. Como se a conversa no fosse totalmente nova para os dois.
   Mas Theresa engasgou. Estava querendo dizer que a amava?
   Ele voltou a ateno para ela e seus olhos estavam totalmente vulnerveis.
   - O que foi? Percebeu as similaridades?
   - No... hum... no. Flavia sacudiu a cabea.
   - Com a sua educao, isso no  surpreendente, mas, querida, precisa parar de olhar para o nosso Cludio com olhos de filha de diplomata e comear a v-lo com 
os olhos de uma mulher que quer acreditar no corao dele e no prprio.
   Flavia tinha toda a sua ateno agora.
   - O que quer dizer quando fala da minha educao?
   - Voc no conheceu o amor incondicional... Acho que, na realidade, conheceu muito pouco do amor. Est acostumada a supor que no h amor, quando, na realidade, 
h.
   Por nenhuma razo que pudesse discernir, Theresa sentiu um aperto no peito de emoo.
   - No entendo.
   - Todos amamos voc,  isso o que digo - Flavia apertou a mo de Theresa.
   Tomasso sorriu.
   - Sim e, embora eu fique honrado se meu filho subir ao trono dos Scorsolini, vou torcer para a fertilizao de vocs dar certo.
   - Porque no quer que ele sofra as presses de reinar um pas? - perguntou Theresa, dolorosamente incerta sobre permanecer casada com Cludio.
   - Porque qualquer criana nascida de voc e do meu irmo ser abenoada e uma linda contribuio a este mundo.
   - Isso foi lindo e muito verdadeiro - Flavia sorriu em aprovao a Tomasso e virou-se para ajeitar o cobertor que cobria as pernas do rei.
   - Pare de me paparicar, amore. Estou bem. Desde que fique comigo, estarei bem.
   - E agora que vo anunciar que vo se casar de novo? - perguntou Danette.
   O rei apenas sorriu.
   - Sim, meus filhos,  exatamente o que vai acontecer.
   - Que maravilha! Quando ser o casamento? - perguntou Marcello.
   - Em trs meses... quando ser seguro fazer uma festa de casamento - respondeu o rei Vicente.
   Depois disso, seguiram-se beijos e abraos de felicitaes. A ateno foi totalmente desviada de Cludio e Theresa, e ela ficou agradecida.
   Mais tarde, ela estava acordada no escuro, sua mente rodando sobre o que Flavia havia falado e a forma estranha como Cludio vinha se comportando. Mesmo agora, 
ele dormia de frente para ela, com a cabea acima da sua no travesseiro, uma das mos no ombro dela e a outra em seu quadril. Estava presa, como se ele tivesse medo 
que escapasse.
   - Explique como acha que um Scorsolini apaixonado se comporta - a voz rouca dele vinda da escurido a assustou.
   - Pensei que estivesse dormindo.
   - No estou.
   - Aparentemente.
   - Ento, fale.
   - Por qu?
   - Por favor, tesoro mio, no jogue comigo.
   - No estou jogando, apenas no entendo que idia  essa.
   - Voc me falou que tem certeza de que eu no a amo porque no sou um marido para voc como meus irmos so para as suas esposas. Quero saber especificamente 
onde falhei.
   Ela sentiu-se sem ar.
   - Por qu?
   - Para poder corrigir.
   - Quer que eu acredite que me ama? - ela perguntou suavemente.
   - Isso no  bvio?
   - Talvez devesse ser, mas no... no na realidade.
   -  como Flavia falou... voc est to desacostumada a receber amor que no o reconhece.
   - Quero ser amada - ela admitiu com uma vulnerabilidade que jamais demonstraria antes de todo o acontecimento.
   - Eu amo voc, Theresa, e um dia saber disso.
   No, no era possvel, mas por que ele dizia isso? Culpa podia provocar muitas coisas, mas no uma falsa confisso de amor. Ela achava que no.
   - Est dizendo que me ama porque deve faz-lo... est tentando se redimir de alguma coisa?
   - No. - E isso foi tudo. Um simples no. Ele no ficou ofendido ou tentou convenc-la com outras palavras.
   E havia algo totalmente convincente naquela simplicidade...
   - Eu...
   - Est incerta. Entendo isso. Eu no percebi que a amava quando nos casamos. Pode ser perdoada por no saber disso tambm. Flavia percebeu, mas tambm notou 
que eu brigava contra isso. Porca misria... eu era to idiota que sequer notei seu amor por mim, mas notei quando ele se foi.
   - Se foi? - ela perguntou, sem foras, mexendo a cabea para conseguir ver o rosto dele.
   Ela podia sentir o olhar dele a fulminando, embora ambos estivessem no escuro.
   - Sim. Acha que eu no perceberia? Garanto que no sou to bobo assim. A forma como voc costumava me olhar como se eu fosse tudo o que sempre quis... a forma 
como ficava excitada quando eu entrava neste quarto. Acabou - a voz dele trazia uma dor que ela conhecia bem. - S rezo a Deus para que ns ajude, e conto com os 
conselhos da famlia. Vou conseguir recuperar o seu amor.
   - Pediu conselhos  sua famlia... aos seus irmos... sobre como conquistar meu amor?
   - Sim, embora nenhum deles seja muito esperto nessa rea.
   - O que disseram?
   - Tomasso sugeriu que eu insistisse na cama, mas essa no  uma opo e eu no quero transar at que seja seguro para voc.
   - Oh...
   - Marcello sugeriu que eu fosse honesto com voc, mas tenho feito isso h dias, sem sucesso.
   - Comunicao honesta  essencial para uma relao. - Mas a pessoa com quem se comunicava deveria acreditar em voc, e no em motivos excusos... como ela vinha 
fazendo com ele.
   Seria verdade? Ele a amava? Ela esteve errada sobre tantas coisas, assim como ele, mas Cludio aparentemente, queria consertar seus erros. Queria que ela se 
sentisse amada.
   - Foi isso que Flavia falou, mas o papai acha que voc precisa de provas. Novamente, no achei esse conselho muito til. No sei que prova posso lhe dar.
   Ela sorriu diante do tom desconcertado da voz dele.
   - Seus irmos no tinham uma sugesto para isso?
   - Como eu disse, nada que eu pudesse usar.
   - A cama no  o nico lugar para expressar amor - mas agora ela via que era o local em que ele o fazia com mais conforto.
   - Sei disso. Reservei todo o meu afeto e a liberao das minhas emoes para o quarto, mas isso s a convenceu de que s servia na cama para mim. E no  verdade, 
amore. Por favor, acredite que sempre foi importante para mim de todas as formas que uma mulher pode impressionar um homem. Eu poderia cortar minha prpria lngua 
por algumas das coisas que eu falei depois que voc pediu o divrcio. Voc acreditou em todas elas muito facilmente, mas depois no acreditou quando falei que elas 
haviam sido geradas por raiva e mgoa. Eu tenho sido muito negligente como marido, e acabei a convencendo da minha falta de sentimentos por voc. No percebi tudo 
isso antes que fosse tarde demais.
   - Tarde demais?
   - Acordei para muitas coisas tarde demais - a tristeza na voz dele era muito real e profunda para ser ignorada.
   Ele realmente a amava. Ele no havia percebido e, de sua maneira tpica, no se deixara levar pelas emoes. Mas ele percebia isso agora e estava magoado.
   Assim como ela tambm ficou magoada.
   Ela sentia como se a agonia dele estivesse dentro do seu corao. E se ela perguntasse... ele diria que tambm podia sentir a dor provocada pela endometriose 
em Theresa, pois ele a amava e a dor dela tambm era dele.
   A evidncia sempre esteve ali, mas ela atribua a todos os motivos possveis, menos aos verdadeiros... ele a amava.
   Ela virou de lado para v-lo completamente e acendeu a luz de cabeceira. Eles ficaram iluminados e ela pde ver sua face molhada.
   Ela o tocou, incapaz de acreditar que ele estava chorando por ela. Homens como Cludio no choravam. Nunca.
   - No  tarde demais - ela sussurrou.
   O forte corpo que se aninhava junto ao dela de repente ficou rgido, e o lindo rosto dele trazia uma esperana cuja viso lhe era dolorosa.
   - No?
   - No.
   - O... - ele respirou fundo e continuou. - O que exatamente est tentando dizer?
   - Eu imaginava o que fazia de Danette uma moa to especial... por que ela podia ser amada pelos pais, por Marcello, mas eu estava destinada a no ser amada 
pelas pessoas mais importantes para mim.
   - Danette  especial, mas Theresa... para mim, voc  infinitamente mais preciosa. Amo voc e passarei o resto da minha vida provando isso. Seus pais so muito 
estpidos.
   - No. Ambos so muito inteligentes.
   - No quando se trata de amor. Voc  incrvel e a grande bno da minha vida. O fato de eles no poderem reconhecer isso faz deles idiotas.
   - Voc no reconheceu inicialmente.
   - Reconheci, mas no rotulei os sentimentos que tinha por voc como amor, pois no queria ficar vulnervel.
   - Como seu pai.
   - Si.
   - Todos aprendemos com nossos pais.
   - Mas podemos desaprender com eles tambm. Amo voc, Theresa, e isso no faz de mim um tolo ou fraco. Isso me d fora e me enche de prazer quando penso no dia 
em que vou compartilhar isso com voc. E vamos, Theresa. Porque mesmo que voc no me fale o que meus irmos fazem, eu vou descobrir e voc saber que  amada.
   - Quer continuar casado comigo mesmo que isso signifique no ter seu prprio filho como herdeiro de Isole dei Re?
   - Si. E verdade. Finalmente, acredita em mim?
   - Oh, acredito... - E a crena a deixava atordoada. - Amo voc, Cludio. Ontem, hoje e sempre.
   A mo que repousava sobre o seu quadril apertou-a quase dolorosamente.
   - No pode.
   - Posso e amo - ela pegou todo o ar que tinha e saltou em guas desconhecidas. - Acredito que voc me ame tambm. Realmente.
   - Amo voc, minha preciosa esposa. Amo. Graas a Deus, acredita em mim... Graas a Deus. - Ele fechou os olhos como se enviasse esses agradecimentos aos anjos 
e os reabriu. - De hoje em diante, voc nunca mais vai duvidar disso. Palavra de prncipe.
   - Acredito em voc - ela falou novamente, com o corao borbulhando por um tipo de felicidade que nunca havia experimentado.
   Ele se inclinou e a beijou. Foi o encontro mais comovente dos lbios deles, pois afirmou de uma forma totalmente no-sexual que eles eram a metade um do outro. 
Para sempre.
   
   
   EPLOGO
   
   A cirurgia foi um total sucesso e, milagrosamente, o procedimento de fertilizao in vitro, feito dois meses depois, tambm. O mdico de Theresa ficou impressionado, 
pois funcionou na primeira tentativa. Depois de saber que ela e Cludio se amavam, ela passou a acreditar em milagres.
   A gravidez dela foi confirmada na vspera do casamento do rei Vicente com Flavia. Toda a famlia festejou na poca e meses depois, quando ela deu  luz trigmeos, 
uma menina e dois meninos.
   A filha deles era a mais velha e, quando o rei Vicente colocou sua mo na cabea dela para confirmar o direito  descendncia, Theresa quase fraquejou.
   - Pensei que apenas os homens herdassem o trono.
   - De onde veio uma idia to arcaica? - perguntou Cludio, rindo. - S porque os bebs Scorsolini so quase todos do sexo masculino, isso no quer dizer que nossas 
filhas no tenham o direito de ser herdeiras. Somos uma famlia real moderna... Sempre falo isso.
   - Mas... sempre falou sobre seu sobrinho assumir o trono.
   - Ele  o mais velho.
   - Oh. Ento ela ser uma rainha?
   - Assim como a mame. Sim.
   Theresa sorriu, exausta pelo parto, mas ainda mais feliz.
   - No faria diferena. Eu a amaria da mesma forma.
   - Claro que sim... nossos filhos conhecero o amor desde o primeiro dia de vida.
   Ela sorriu, seu corao to cheio de felicidade que s vezes achava que no ia suportar. Ele vinha demonstrando seu amor de maneiras que no deixavam dvidas. 
Comeou permitindo que os irmos dividissem mais os deveres com ele enquanto o pai convalescia, para que ele pudesse dar mais ateno a Theresa, depois da operao.
   Ele at ficou no hospital com ela, e os tablides se fartaram com isso. Ele fazia um grande esforo para eles passarem mais tempo juntos e agora, quando ele viajava, 
ela ia junto.
   Mesmo grvida.
   Ela pegou a mo dele, adorando sentir os dedos dos dois entrelaados.
   - Descobri que voc  especialista em demonstrar amor, sem dvida nossos filhos vo receber todo amor de voc.
   Ele sorriu para ela.
   E o rei Vicente sorriu para ambos.
   - Os homens Scorsolini so muito sortudos... devemos criar meus netos para conhecer a bno do amor que caracteriza a famlia.
   Ao lembrar da antiga maldio em que o rei acreditava, Theresa sentiu lgrimas nos olhos.
   - Garantiremos que eles conheam a bno do amor, papai.
   E eles conheceram... todos os dias de suas vidas.
   
   FIM
   
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